domingo, 27 de janeiro de 2008


casebres são sempre pobres
como uma papoula pedindo esmola
como uma verdade sem escola
casebres são sempre pobres
uma enorme e apocalíptica torre
que se desmorona
casebres são sempre podres
parecidos com uma tosse que nunca finda
uma explosão da mais horrenda berlinda
casebres são sempre pobres
como uma língua sem linha
um trilho no meio da noite que não espana
um bosque de insuportáveis suspeitos
como uma boca que escarra uma fétida ferida
casebres são imprestáveis
não servem absolutamente para nada
eles não aparam o sol
a chuva ácida de colapsos de cápsulas
uma infinita máscara
como uma rosa que partiu
casebres não merecem respeitos
um mar de lama que perdeu o efeito
uma merda de declarado sujeito
casebres
são palmas, palmos de palhas
encharcados de tanto se crer
casebres não valem nada
são casas abandonadas
uma porção de alegria mofada
casebres que exalam sangue
uma ruptura de anos
que se alastra
por todos os ausentes
casebres são como ogivas
que parecem onde moram a serpente e o que sirva
como o choro de um ladrão de alma
casebres são faces de feses
uma sempre semente tão réptil
que desengana a mais óbvia
pulsação de um órfão
vômito, pele que expele
casebres já não sabem o que fazem
são só vapores
incandescentes
uma enorme prisão
que sufoca o suor de tudo que está preso
casebres são como bestas
tão destronáveis
uma adega de morte e noite sem fim
como o escuro de uma face que não fala
uma vala de uma vela que não atende
uma centopéia, a teia que trança
como facas que rasgam a fome
de quem ainda anda em órbitas
como nada mais importa
casebres são como casas sem caras
um monte de lágrimas
um charco de extremos
o limite que roubou a hora de
quem já não sabe mais
o que é dá no pé
tudo são só ruínas
casebres são como esquinas
lâminas tão finas
casebres são mufinas
casebres são muitas nicotinas
casebres são poças
partes de portas
a despedida
e um caminho sem volta.


Cgurgel

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008





pudera também assim ficar
como se fosse embaixo da cama
entreolhando os pés e os chinelos que por lá passeiam
uma urbe submersa onde se instalam pés, meias, chinelos e sapatos


parece que por baixo dos lençois, estrados e colchões
o mundo não passa de uma grande e inesquecível palmilha
por onde desfila uma passarela de intimistas cores e odores

assim,
os habitantes que por aqui pululam
trocam hipnoticamente as mãos pelos pés

e pela noite,
como um incomparável celeiro
um frisson que se estabelece
por cima,
por entre a cama
democrática e elástica

pelos pés,
por onde passam,
passárgadas e alpercatas,
que rodopiam por entre as geografias de um paraíso fusível e vasto

por aqui,
tudo que o escuro dos pés alcançam
um entra e sai
de labirintescos gestos de pernas e unhas
como uma avalanche das partes baixas do corpo

simpatizante
dos gostos rasteiros e percussivos
um movimento como se fosse um intruso
que espalha
o seu amor pela rama do chão

anjo-protetor do compasso de um espaço
de esperas e encontros

como quem beija e calça pés
um nicho contínuo
um verdadeiro mensageiro de marcas

sim,
os pés,
são como enormes tótens
uma chuvarada de desígnios
assim como o corpo,
uma almofada que se dilui em momentos.


Cgurgel

terça-feira, 22 de janeiro de 2008


O BELO E O PROFANO DE LaCHAPELLE


Heaven to Hell traz a síntese do trabalho do fotógrafo americano, conhecido por ressaltar a beleza no caos

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo


GALERIA

São 25 imagens pinçadas do livro homônimo, lançado pelo fotógrafo em 2005, e ainda alguns de seus trabalhos mais representativos na área do audiovisual, especialmente videoclipes. "O livro reúne uma série de imagens que a gente traduziu como belezas e desastres. Elas representam exatamente a contraposição contida nessas imagens, do sagrado e profano, e a visão controversa e irônica do David LaChapelle da sociedade atual", define Chico Lowndes, curador da exposição no Brasil.

Heaven to Hell foi concebida para o Malba de Buenos Aires, no primeiro semestre do ano passado. Já o livro, encerra a trilogia iniciada por LaChapelle com o livro LaChapelle Land, há dez anos, e que tem ainda Hotel LaChapelle (1999). "Guardamos a exposição para trazê-la agora ao Brasil para coincidir com a São Paulo Fashion Week, quando existe uma efervescência muito grande na cidade em torno da moda", justifica Lowndes.

Conhecido como o artista que consegue fazer uma ligação coerente entre Jennifer Lopez - para quem dirigiu o clipe de I’m Glad - e Andy Warhol - com quem trabalhou no início de sua carreira -, LaChapelle foi desbravador da era tecnológica na fotografia e, desde sempre, mestre da pós-produção.

Suas imagens, especialmente as que compõem a exposição que chega agora ao MuBE, são conhecidas pela saturação exagerada de cores, que criam um clima de sonho surrealista, ao unirem a beleza humana a um cenário de apocalipse. "É o retrato de um momento da carreira de LaChapelle, uma compilação de alguns anos de trabalho, que reúne praticamente a produção de dez anos", explica o organizador.

Difícil de explicar, mas muito fácil de absorver. Só assim para definir o que o nome LaChapelle representa hoje no mundo pop, já que esticou seus tentáculos da fotografia, para a moda, música, publicidade, cinema e televisão. "O trabalho dele, ainda mais nesse livro que deu origem à exposição, extrapola a fotografia", teoriza Lowndes. "É um trabalho de fine art, de moda e também de retratista de celebridades. Neste momento de sua carreira, cada vez mais ele se mostra como um fotógrafo de arte."

LaChapelle é cria de Andy Warhol. Foi o pai da pop art que mais o incentivou no início de sua carreira, quando tinha 18 anos. Mas, muito antes dele, foi a mãe do fotógrafo, Helga, quem plantou a semente do barroco na personalidade do filho, que explodiria anos depois. Imigrante lituana, ela costumava vestir os filhos com trajes elaborados e fazê-los posar para fotos em frente a casas de outras pessoas, criando um mundo de imaginação.

Com Helga, LaChapelle aprendeu a estampar a criatividade, e de Warhol, recebeu o incentivo que precisava para misturar o trabalho criativo com o comercial sem pudor. Ele não faz distinção alguma entre uma foto feita para um editorial da Vogue Itália, por exemplo, e uma feita para um livro de arte - porque tudo é arte, oras.

Ex-ajudante de garçom do lendário Studio 54 de Nova York, LaChapelle convive desde os 15 anos entre "os que interessam". Hoje, se diverte desconstruindo celebridades de alto quilate e fazendo-as rir de si mesmas - Angelina Jolie, Pamela Anderson, Britney Spears, Madonna, Courtney Love -, em poses controversas, desafiadoras. Algumas seriam até vexatórias. Não fosse o crédito "David LaChapelle" para transformá-las em momento célebre.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


COM UMA FUGA ATRÁS DA ORELHA


No início do filme “Mediterrâneo” aparece uma frase: “nesses tempos difíceis, às vezes fugir é o melhor remédio”. Meu plano de fuga de hoje inclui algumas frases feitas (num tal de abre asas e fecha aspas) e som em alto volume.
Beto Guedes diz numa canção: “Encontrar o coração do planeta / E mandar parar
Pra dar um tempo de prestar atenção nas coisas”. Assunto recorrido esse - do tempo mais corrido e menos rido. É preciso rir do tempo, rir com o tempo, cantar “time is on my side, yes it is”. Ilusão que seja... E o que é a vida senão a procurar de SIMs?
Sábado eu fui à comemoração do aniversário de um grande e velho amigo. O tempo parou de repente. E também voltou atrás. Sei que há um monte de teorias sobre o que é saudosismo, nostalgia, essas coisas. Mas sei também que a banda setentista paulista de rock Joelho de Porco um dia disse - “eu vou escrever no muro: hoje é o passado do futuro”.
Ontem um certo passado virou presente de novo, se reinventou. Hoje já é passado de ontem novamente. E o tal do futuro? A banda punk gaúcha oitentista cantava: “O futuro é vortex”.
Pois é. Na festa de Aldo Jr. houve um momento que uma parte da turma se juntou espontaneamente junto à fogueira do som. O som tem esse fogo, já que música é alma. Ficamos juntos do equipamento, como nos velhos tempos. Só que agora pilotando um iPod – um prato cheio de canções para nossas refeições musicais atemporais. Cada um, na sua vez, escolhendo sua(s) música(s), entre clássicos e clássicos do rock. Sem conversar. Nada contra o que a outra parte da turma fazia numa mesa que se afastou do barulho cada vez mais perto de nossas oiças. Não mais a música de fundo (que de fundo acaba sendo de findo). E sim nós de fundo para a música de profundo.
Nada de novo. Antes já era assim: íamos para a casa um do outro só para escutar LPs, a tarde inteira, sem conversas, só audição. Para prestar atenção mesmo!
Regressão é isso?
Regredir é também avançar. Parar é também se movimentar. Parar para se cobrir de sonhos em movimento, no descobrir e redescobrir. Como Manuel de Barros em sua infância desbravando o “império do chão”.
Leminski já dizia: “distraídos venceremos”. Clarice Lispector também já falou da importância de estarmos distraídos. E Chico Science cantou: “eu me organizando posso desorganizar”. É importante nos distrairmos do mundo real, para a distração de um outro mundo menos organizado cartesianamente - também real, mas menos visível.
Nessa perspectiva, o ponto em questão é um ponto de fuga. Uma fuga atrás da orelha. Uma fuga que é também um encontro. Um encontro sonoro que me inquieta: por que não ele acontece mais vezes? Então é isso: de vez em quando desplugar o cérebro da tomada do mundo corrido (por um tempo mais rido e menos ido), plugar o cérebro no som e...
...aumenta que isso aí é rock and roll!!!


Carito - "Poetas Elétricos"

Brigas
Porque a janela do quarto já não satisfaz as tuas manhãs
Como uma lesma que já não sabe o que é viver de esmolas e perdões
E que sofres pela falta do carinho que não destes

Ousas
Que por mais que repitas
Que tudo são como bombas feridas
E que o colar que usas
Reluz ferro e brasas
És filho da inconfidência e da língua vã

Partes
Como quem carregas um chaveiro sem chaves
Um olhar que afana a podridão de uma trilha deserta
E de um beijo que já não suportas o que reclamas

E chagas
É o que carregas na mala
Um estopim que a cada minuto estampas
Como um infortúnio de uma mina maltrapilha e febril
Prima de uma obra que já não enganas
Uma quadrilha de desastres e cinismos

E como verme da noite
Rastejas tal qual um discípulo
Que escarra pelo faro
A farinha, qual avaro
Do seu próprio destino.


Cgurgel

domingo, 20 de janeiro de 2008


FLÁVIO DE CARVALHO
Suntuoso, lúbrico, dramático

de Denise Mattar

Flávio de Rezende de Carvalho nasceu a 10 de agosto de 1899 em Amparo da Barra Mansa, Rio de Janeiro. Seus pais, Raul de Rezende Carvalho e Ophélia Crissiuma se orgulhavam de sua ascendência aristocrática, que incluía o barão de Cajuru e o conde de Arcos.

Aos doze anos foi estudar na França e a seguir na Inglaterra onde se formou engenheiro civil, retornando então ao Brasil. Tinha 1,90 de altura e porte atlético. Era ateu convicto e um ferrenho celibatário - cercado de belas mulheres. Seu temperamento rebelde e extravagante, aliado à educação de um gentleman, sua timidez escondidas atrás de atitudes histriônicas e provocativas, e sua produção artística sem concessões, fizeram com que ele selecionasse os mais curiosos epítetos e classificações: romântico, pintor maldito, surrealista tropical, antropófago ideal, performático precoce, javali do asfalto, comedor de emoções...

Flávio foi amigo de algumas das personalidades de seu tempo, especialmente as mais polêmicas como Oswad de Andrade, Di Cavalcanti, Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda, Geraldo Ferraz, entre outros. Uma lista de suas mulheres seria interminável, mas podemos citar Cacilda Becker, Inge de Beaussacq, Maria Kareska e Eva Harms.

Colecionou inimizades, e, num Brasil ainda tão provinciano, foi muito discriminado por suas atitudes frontais contra o clero e a religião.

Sua formação internacional permitiu que tivesse contato com artistas e intelectuais como Ben Nicholson, Barbara Hepworth, Henry Moore, Arne Hsek, André Breton, Herbert Read, e que pudesse trazer alguns deles ao Brasil.

Visto como comunista, Flávio era apolítico. Sua viagem por diversos países da Europa, em 1934, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, fez com que ele se desencantasse da política e visse nos movimentos mundiais apenas razões psicológicas.

Sua casa na fazenda Capuava, assim como outros ateliês e residências anteriores, era um ponto de encontro da intelectualidade, onde ele recebia de maneira elegante, informal e às vezes escandalosa para os rígidos padrões da época. Sobre Flávio de Carvalho já foi dito que a pessoa ofuscou o artista, que seu trabalho é disperso e que suas diferenças facetas são incoerentes. Entretanto, a pessoa e a obra de Flávio de Carvalho são inseparáveis, e um fio condutor claro norteia toda a sua produção em textos, animação cultural, experiências, arquitetura, dramaturgia, desenho e pintura: "o desenvolvimento da percepção psicológica e da percepção mentalista do mundo".

Um arquiteto quase virtual

A aparição de Flávio de Carvalho no cenário de artes do Brasil se fez através de sua ruidosa participação no concurso do Palácio do Governo, em 1927.

O estranho projeto se destacou entre os concorrentes neoclássicos e uma bem urdida campanha jornalística, organizada em acordo com Geraldo Ferraz, tornou Flávio muito conhecido, aproximando-o dos modernistas, especialmente de Oswald de Andrade.

Como "delegado antropófago" ele apressou a conferência "A cidade do homem nu" no IV Congresso Panamericano de Arquitetos (1930), causando revolta na comportada audiência.

Participou de Vários concursos, sem ganhar qualquer um deles, e tornou-se um dos mais famosos arquitetos do Brasil. Entretanto, apesar de Ter criado muitos projetos, apenas dois foram concretizados; ambos em empreendimentos seus e às suas custas: o conjunto de casas de Al. Lorena e a fazenda Capuava. O conjunto de casas à Al. Lorena (1938) foi habitado por moradores como Pagu, Frank Smith, Geraldo Ferraz, Georg Przyrembel, Leônidas Autuori e o próprio Flávio.

Acompanhando as casas "frias no verão e quentes no inverno" havia um "modo de usar" no qual o arquiteto dava conselhos personalíssimos aos moradores: "aconselha-se o uso de móveis que ocupem pouco espaço pois são mais estéticos, confortáveis e higiênicos. Infelizmente os fabricantes de móveis (pseudo-modernos) ainda não compreenderam o problema do espaço da vida de hoje".

A casa da fazenda Capuava (1939), construída como uma mastaba, tinha um grande salão sem divisórias, cortinas coloridas ondulantes, banheiros e cozinha de alumínio, uma lareira com vapores coloridos, e uma piscina iluminada por luzes vermelhas: "o norteamento foi exclusivamente poético. A concepção de toda casa é um produto puro da imaginação, tentando criar uma maneira ideal de viver. A poesia é, aliás, indispensável à criação arquitetônica como fator de elevação do homem. As cortinas do salão foram estudadas em largura, comprimento e peso específico para que possam balançar ao vento para fora e para dentro, ao ritmo eventual da música. As aberturas foram idealizadas para fazer com que - usando a frase de Mário de Andrade - 'a paisagem, as nuvens, a luz, o ar entrem dentro da casa'. "

Para Flávio de Carvalho a arquitetura devia ter um valor "psíquico", ser voltada para criar novas formas de viver e pensar.

"Pesquisar a alma nua, conhecer a si próprio".

Ignorando durante anos nos estudos sobre a arquitetura no Brasil, Flávio de Carvalho teve seu trabalho analisado, de forma inteiramente diversa, por Rui Moreira Leite, Americo Ishida e Luiz Carlos Daher.

Um caso de polícia

"Palpar psiquicamente a emoção, provocar a revolta para ver alguma do inconsciente, este era o objetivo de Flávio de Carvalho ao realizar sua "Experiência nº 2", um conceito que pode ser estendido a toda sua ação performática.

Atravessando em sentido contrário a procissão, com seu boné de veludo verde na provinciana São Paulo de 1931, Flávio teve a oportunidade de ver muito de perto as conseqüências de uma multidão enfurecida, e no seu quase linchamento ele pôde "palpar psiquicamente" uma nova emoção - o medo.

O livro, que relata e analisa a experiência, as reações da procissão e da assistência, e suas próprias sensações, foi dedicado pelo autor a "S. Santidade o papa Pio XI e a S. Eminência D. Duarte Leopoldo".

O evento deu ao artista uma aura diabólica - que ele cultivava -, e iniciou sua presença nas crônicas policiais.

Os anos 30 foram de intensa atividade para Flávio de Carvalho em várias áreas. A fundação do CAM - Clube de Artistas Modernos (com Di Cavalcante, Gomide e Carlos Prado) revelou um animador cultural capaz de criar fatos novos e significativos. Um espaço onde se viu e discutiu artes plásticas, música, antropologia, sociologia, política, literatura e psicologia, com participantes como Käthe Kollwitz, Camargo Guarnieri, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Jorge Amado, e os psiquiatras Dr. Durval Bellergarde Marcondes e Antônio Carlos Pacheco e Silva.

"Em 1933, São Paulo é chocada por uma exposição inusitada - desenhos de criança e loucos - organizada por Flávio de Carvalho no quadro das manifestações polêmicas do Clube dos Artista Modernos. (...) Sem querer chegar a afirmar que o Brasil é o pioneiro neste tipo de pesquisa, torna-se necessário lembrar, no entanto, a polêmica de Flávio de Carvalho, uma vez que pelo menos em duas frentes ele antecipa a posterior campanha de Dubuffet em prol da arte não-cultura: quando afirma 'a importância psicológica e filosófica da arte do louco e das crianças', quando se opõe às 'paredes opressoras e asfixiantes da Escola de Belas Artes que, corrigindo e polindo, procuram impor aos alunos a personalidades freqüentemente mofada e gasta dos professores'."

No mesmo ano Flávio de Carvalho cria o Teatro da Experiência encenando O bailado do deus morto, "uma obra filosófica,... que mostra as emoções dos homens para com o seu deus". Era um espetáculo experimental de teatro/dança, com texto, cenários, coreografias, figurino e iluminação de Flávio. Os atores usavam máscaras de alumínio e se moviam de forma expressionista.

Totalmente inovador, o bailado causou escândalo e o teatro foi fechado pela polícia. De nada adianta os manifestos repúdio à ação em São Paulo e no Rio, assinados pelos princípios intelectuais da época. O teatro interditado teve como triste resultado o encerramento do CAM.

Em 1934 Flávio de Carvalho inaugurava, com grande sucesso, sua primeira exposição individual, que logo a seguir seria fechada... pela polícia. Cinco obras são apreendidas sob alegação de indecência, imoralidade e atento ao pudor. Toda a intelectualidade protesta: "A política paulista está caindo no ridículo"; "um escândalo artístico-policial".

Desta vez, porém, Flávio consegue a reabertura da mostra e ganha na justiça o direito de um indenização.

Os anos 40 serão marcados pela realização da "Série trágica". A morte encara de frente. Uma catártica "emoção palpada" - e uma grande rejeição pública.

Em 1956, como conclusão da série de artigos "A moda e o novo Homem", Flávio faz o famoso lançamento de seu "traje de verão" - o New Look. A passeata pelas ruas da cidade de São Paulo reuniu a multidão heterogênea num mesmo olhar espantado. Flávio utilizou todos os veículos de comunicação da época, incluindo a iniciante televisão, e multiplicou a penetração de sua performance. Jamais um artista atrairia tanta atenção; mais uma vez ele conseguira manipular "a alma coletiva".

Um teórico mal comportado

Em seu livro Os ossos do mundo (1936) Flávio de Carvalho afirma que os arqueólogos e os psicólogos devem ser mal comportados; e é exatamente o que ele faz em seus textos, onde transmite ao leitor suas teses, "discutibilíssimas" segundo Sérgio Milliet.

Os temas abordados são apenas um ponto de partida, quase um pretexto para divagações, reflexões e análises tendo como base a interpretação extremamente pessoal que Flávio fez das teorias de Freud Darwin.

Os ossos do mundo, com prefácio de Gilberto Freyre, foi encomendado como livro de impressões de viagem. Seu conteúdo polêmico foi recusado pela editora e finalmente publicado pela editora Ariel. Foi um sucesso absoluto de vendas.

Sylvio Rabello escreveu uma crítica ao livro que pode ser estendida a toda sua produção teórica: "as coisas têm para o Sr. Flávio de Carvalho um sentido estranho, como se os seus olhos penetrassem mais fundo na intimidade delas. Explica os fatos apanhando, aqui e ali, fios sutis e desapercebidos pela maioria dos homens e, quase sempre, as suas explicações são de um imprevisto que faz pensar numa possível morbidez de escritor. É que estamos habituados a pensar como todo mundo. As nossas idéias não são nossas: são idéias servidas e resservidas por todos. E idéias diferentes arrepiam e chocam, como se fossemos perder subitamente o equilíbrio. O Sr. Flávio de Carvalho está sempre a dar empurrões na rotina e no lugar comum, a fazer-nos perder o equilíbrio..."

sábado, 19 de janeiro de 2008



LANNY GORDIN, ESTRAÇALHANDO ACORDES E CORAÇÕES



O primeiro ácido que Lanny Gordin tomou foi em uma excursão com o cantor Jair Rodrigues, no início de 1972. Quando o efeito bateu, Lanny sentiu-se em outro mundo, numa espécie de nirvana. “Começou aí a minha viagem pro interior de mim mesmo. Foi sensacional”, relembra. A excursão havia começado em Londres e passado por Estocolmo, Amsterdã, Lisboa, Paris e outras cidades européias. Lanny vivia o auge de sua carreira de guitarrista. Após a turnê, voltou a Londres para descansar. O ácido lisérgico foi presença constante nessa excursão.

Quando voltou para São Paulo, Lanny continuou saboreando o ácido. “Eu queria ver aquelas cores de novo, aquele outro mundo. Eu andava na rua à noite e parecia que eu estava em outro mundo. Parecia que eu estava no céu.” Em uma dessas viagens lisérgicas, veio a bad trip, em 1974. Das cores às sombras. Do céu ao inferno. Tudo isso em algumas horas. “Comecei a pirar da cabeça. Eu não entendia o que estava acontecendo.” Lanny sentia-se como um espírito consolador, um Jesus Cristo, “o que é normal para quem toma droga”. “Mas aquilo não era real, era droga, uma pilulazinha que dura 12, 15 horas e que custa alguns dólares.”

Depois da overdose, a internação em sanatórios (“Só tinha louco!”) e a experiência de ter passado por tratamentos nada convencionais, como o eletrochoque. “O tratamento era muito bom, os médicos, muito gentis. Eu adorava o tratamento, mas me entucharam de choque elétrico, de insulina, de remédios. Eu andava que nem um zumbi, um morto-vivo. E a coisa mais importante que me salvou da piração foi a ajuda de Deus e a minha música.”

Nesse período de internações, os dedos das mãos de Lanny estavam duros, sem flexibilidade; quase não dava pra tocar violão. Mas ele não conseguia deixar a música de lado. Pela falta de mobilidade dos dedos, o morto-vivo Lanny só conseguia tocar uma única nota, um mísero dó maior. Tal qual Syd Barret, o gênio fundador do Pink Floyd, a meteórica carreira de Lanny praticamente terminara aí, destruída pelo LSD.

Sempre que alguém pergunta a Lanny – e isso é freqüente - se houve arrependimento com relação ao uso de drogas, ele diz não de forma enfática. A resposta comum é: “Fez parte da minha vida.” Depois, deita explicação: “Eu tive o livre arbítrio de tomar a droga, por experiência e pra saber o que era. Eu continuei tocando e não parei de tocar. Teve uma época que eu parei de tocar, por que eu estava ligado em ligação transcendental, com o mundo espiritual. Eu sou meio médium. Eu já entrei em estado alfa, o mundo dos espíritos. A gente se comunica por telepatia. Allan Kardec explica isso muito bem. Eu saía do meu corpo e ouvia vozes. Uma mulher espiritual, invisível, uma vez me falou: ‘Cê tá louco!’ Aí eu pensei: ‘Eu vou falar com essa mulher.’ E falei: ‘Só Deus vai me ajudar.’ E a mulher calou a boca. E eu ouvia uma outra voz de um homem espiritual me perguntando o que eu queria. Aí eu pensei, na hora me veio na cabeça: ‘Eu gosto muito de groselha’. Aí eu falei pro cara: ‘Será que não dá pra você me arranjar um copo de groselha?’ (Risos) E aí o cara falou que não ia dar. ‘Olha, a gente não tem o dom de materializar… Mas você quer ouvir um pouco de música?’ Aí ouvi uma música parecida com a de uma orquestra sinfônica. Eu ouvi essa música e fiquei extasiado. Puta, que música linda.”

“Eu me lembro que estava em Ilha Bela, com a minha família, e entrei nesse estado alfa, e eu tive uma visão de um espírito. Uma perna era maior que a outra, um rosto meio deformado; aí eu me comuniquei telepaticamente. Eu perguntei o que ele estava fazendo, o que ele gostava de fazer. O espírito falou: ‘Eu gosto de ouvir o som da descarga da privada’”.

Lanny solta uma gargalhada.

***

O maestro Rogério Duprat, que produziu diversos artistas tropicalistas como os Mutantes, já classificou Lanny como o maior guitarrista brasileiro e sempre dizia que o único músico que podia tocar do que jeito que quisesse no estúdio era ele.

Jards Macalé disse, em 2000, ao extinto site “Cliquemusic”:
– No cotidiano com ele, meu violão mudou. Além de ter um talento enorme, o Lanny tinha um violão muito peculiar, muito rico. Ele é o que mais se aproxima de Jimi Hendrix. Lanny é uma das mais profundas e ricas musicalidades do Brasil. Quem quiser aprender a guitarra tem que ouvir Lanny Gordin.

No mesmo site, Chico César foi mais longe:
– Lanny Gordin é um primeiro-sem-segundo na guitarra brasileira.

O jornalista Cláudio Júlio Tognolli registrou, sobre o lançamento do primeiro disco solo de Lanny, em 2001:
– Talvez o único guitarrista brasileiro que tenha conseguido imprimir uma grife glamurosa ao instrumento tenha sido Lanny Gordin: você ouve e sabe que é ele tocando. E mais: Lanny faz um patchwork genial entre a bossa, o rock e o jazz, sem que pareça uma colcha de retalhos. Lanny opta pela sugestão, em vez de afirmar. Sua marca estará na forma, não no conteúdo. Se existe uma guitarra brasileira, ela se chama Gordin.

Em uma entrevista ao “Jornal da Tarde”, também em 2001, Sérgio Dias, guitarrista dos Mutantes e considerado um dos melhores do Brasil, disse ter aprendido muito com Lanny:
– Ele me ensinou 80% do que sei de harmonia quando fez para mim os arranjos de “Você Precisa Aprender a Ser Só”. O cara é maravilhoso.

Em um texto sobre o disco solo, o crítico musical Celso Pucci escreveu na “Folha de S. Paulo” o seguinte:
– A pegada lisérgica da guitarra de Lanny Gordin foi mola-mestra para a expansão sonora do tropicalismo. Sua incrível técnica, aliada a criatividade exuberante, o projetou de tal forma que Lanny chegou a ser considerado uma espécie de “Jimi Hendrix Caboclo”.

***

As comparações entre Lanny e Jimi Hendrix sempre foram freqüentes. Outras palavras muito usadas para descrevê-lo: gênio, único, deus, ícone, lenda, mito.

Lanny desfilou sua guitarra em trabalhos de grandes nomes da música brasileira e fez arranjos que hoje são considerados clássicos, como os da música “Meu nome é Gal” (1969) e “Pérola Negra” (1971). No disco “Expresso 2222” (1972), de Gilberto Gil, criou harmonias e tocou em diversas faixas, como em “Back in Bahia” e “O Canto da Ema”.

No disco “Araçá Azul” (1972), de Caetano Veloso, o guitarrista dividiu a autoria da música “De Cara”, na qual fez um de seus solos mais inspirados. No disco “Build Up” (1970), de Rita Lee, ele dividiu com o mutante Sérgio Dias a guitarra. Com Jards Macalé, tocou baixo elétrico e violão em algumas faixas do disco “Jards Macalé” (1972). Lanny também marcou presença no cultuado “Brazilian Octopus”, clássico psicodélico lançado em 1969, que teve a participação de artistas como Hermeto Pascoal, Olmir Stockler e Nilson da Matta. Lanny tocou ou gravou também com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico César, Sarah Vaugham e Ravi Shankar.

***

Os avós de Lanny Gordin são de ascendência russa e polonesa, mas ele nasceu em Xangai, na China, em 28 de novembro de 1951. Lanny e seus pais logo se mudaram para Tel Aviv, em Israel. Aos 6 anos, mudaram-se para o Brasil (primeiro Rio de Janeiro e depois São Paulo).

A música entrou na vida de Lanny através da avó, que o fazia estudar piano clássico. “Eu fingia que lia as partituras para a minha avó, mas na verdade eu tocava de ouvido. Minha avó sempre brigava comigo porque eu tocava muito alto”. “Toca mais baixo, Lanny! Você está destruindo o piano!”, dizia a avó.

Por volta dos treze anos, o pai lhe deu um violão e, pouco tempo depois, o garoto já empunhava uma guitarra. Aos 16 anos, tocava na boate do pai, a Stardust, que ficava na praça Roosevelt, centro de São Paulo. A esta altura, os estudos já não lhe faziam mais a cabeça. Seu pai então disse: “Você vai largar o colégio e vai ser músico, porque você já está se virando com música”.

A Stardust foi a verdadeira escola de Lanny. Mas o som tocado por lá era mais comercial, pra dançar. O pai de Lanny não gostava quando ele começava a solar e a fazer experimentações. Mas outros músicos que tocavam na casa, como Hermeto Pascoal, Eliarco Verde e Heraldo do Monte incentivavam Lanny a experimentar e a tocar do seu jeito. Era só o pai sair da boate para ele caprichar no fraseado experimental e psicodélico.

Um fato curioso: como Lanny era menor de idade, havia alguns cuidados a serem tomados na boate. Na portaria da casa havia um botão que acionava uma luz no palco e era o sinal de que uma batida do juizado de menores estava chegando. Lanny então corria para os camarins que ficavam no porão.

No quesito influências, as principais são os guitarristas Jimi Hendrix e Wes Montgomery e as bandas Beatles, Rolling Stones e The Cream. E Os Mutantes, é claro. Lanny conheceu o guitarrista Sérgio Dias antes ainda de a banda começar. A parceria foi fundamental em sua vida. Sérgio, ao lado de Pepeu Gomes, era com que mais Lanny gostava de tocar. “Nós amávamos musicalmente.”

Antes de ser descoberto pelos tropicalistas, Lanny fez parte das bandas The Cats, The Beatniks e Os Kantikus, entre outras.

***

Alexander Gordin, 56 anos, é um sujeito alto, tímido, extremamente gentil, com um ar de cientista maluco e criança inocente. Traz no semblante e na voz seqüelas da bad trip, dos choques no sanatório e da esquizofrenia, doença diagnosticada depois da overdose. Em uma conversa, é comum ele se perder no raciocínio e perguntar em que ponto estava e, logo depois, dar gargalhadas. Há quem diga que Lanny passou por uma bad trip e nunca mais saiu dela.

Mas quando está com uma guitarra em mãos, é a concentração em pessoa. “Quando toco, me desligo de tudo ao redor. Sou só eu e minha guitarra, como se estivesse sozinho no centro do universo.”

Lanny descobriu que tinha esquizofrenia ainda nos anos 70 e até hoje luta contra a doença e a depressão. “Mas a esquizofrenia é pequena e não me domina.”

Em 1982, passados quase dez anos da bad trip primordial, Lanny ensaiou uma retomada na carreira, tocando ao lado de Arnaldo Antunes, na Banda Performática, liderada pelo artista plástico Aguillar; mas a empreitada não foi adiante. Em 1995, fez uma participação no primeiro disco da cantora paulistana Vange Milliet e, no ano seguinte, tocou no disco de Chico César (“Cuscuz Clã”). Em 1999, Jards Macalé o convidou para tocar no álbum “O Q Faço É Música”.

Durante esse tempo, o ganha-pão de Lanny era tocar em pequenos bares e dar aulas particulares de guitarra. Ele diz ter desenvolvido um método no qual ensina a pessoa a tocar todos os acordes possíveis e estudar sozinho. “É uma fórmula de combinação de dedos, é uma lógica matemática. Mas isso leva tempo, não é de uma hora pra outra, leva alguns anos. Eu ensino pros meus alunos isso, eles vêm em uma, duas aulas, e depois eles somem e dizem ‘ah, eu vou estudar sozinho agora’”.

Uma de suas manias é fazer gravações caseiras experimentais, usando o recurso de playback. Ele grava duas ou três camadas de guitarras separadamente e depois sola por cima, gravando o resultado final. Lanny diz também ter criado uma forma de transformar todo o som que ouve em música. “Eu não preciso ouvir músicas famosas; qualquer som que eu ouço, eu já entro no clima, eu transformo no som que eu faço com a minha guitarra.”

Lanny conta que chegou a morar na rua durante quase uma semana. “Eu dormi em banco de praça. Uma sensação de liberdade incrível. Eu queria ser independente”, diz, às gargalhadas, sublinhando o independente. “Larguei minha casa, toda a minha família, e fui sozinho, com meu saco e minha guitarra Vision. Quando eu tinha fome, eu ia pros bares suburbanos, eu andava muito a pé, eu falava ‘olha, eu estou com fome, eu não tenho nada, me dá alguma coisa pra comer’. E eles me davam pão com água. Nessa época, eu morava na casa do meu irmão. Eles (a família) entendiam, ‘o Lanny vai aprender como se virar, ele vai voltar um dia’. Eu ficava na avenida São João. Depois de uma semana, senti a barra, e pensei: ‘Vou voltar pra casa do meu irmão’. Antes disso, quando eu morava na rua, eu deixei a minha guitarra na avenida Rio Branco, porque ela já estava meio quebrada.”

***

Luiz Calanca, proprietário da loja e selo musical Baratos Afins, foi um dos primeiros alunos do professor Lanny Gordin. No material de imprensa distribuído quando do lançamento do disco homônimo, ele relembra: “Logo na primeira lição, percebi que seu método não era o convencional ou que ele não tinha mesmo um método, mas que eu poderia aprender o que queria se eu também soubesse o que realmente queria. Resolvi então gravar as aulas, para depois poder ouvir e talvez tentar tocar junto. Fomos gravando, gravando… (…) Depois, ouvindo as fitas me dei conta de que estava diante de um material de cunho não apenas didático, mas fascinante e riquíssimo. Era tudo artesanal, melodias que se tornavam cada vez mais bela a cada audição, passei a ouvir continuadas vezes por dia durante semanas, não dava para esconder minha alegria.”

Calanca convenceu então o professor a gravar mais uma camada de guitarra e também violão e contrabaixo nas músicas. E assim saiu o disco, todo instrumental, sem grandes produções ou truques de estúdio. Ainda em 2001, Lanny, Guilherme Held e Zé Aurélio criaram o Projeto Alfa, que já lançou dois discos (“Volume 1” e “Volume 2”) pela Baratos Afins.

Neste 2007, Lanny se lançou em mais uma tentativa de relembrar os velhos tempos em que era reverenciado como o melhor de todos. O álbum “Duos” (Barraventoartes/Universal) traz Lanny tocando com grandes intérpretes, todos seus admiradores, das mais variadas estirpes, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Vanessa da Mata, Zeca Baleiro, Rodrigo Amarante, Edgar Scandurra, Jards Macalé, Chico César e Max de Castro. O disco vem sendo trabalhado também em shows na capital paulista. O produtor Glauber Amaral foi quem deu a mão que faltava para o trabalho sair e é quem assina a direção artística do CD e do show.


* Carlos Eduardo Moura

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008


Porto que vate
como uma flor do mato
uma fonte d'água
pés descalços
sem medo de pisar
luzes
faróis
conversas de pássaros

Na manhã seguinte
um arvoredo
estalar de dedos
uma enorme solidão
pontes
velas
luzes
e os passos de um pássaro que passa

De novo
até onde o sol se pôr
cardumes
espinhos
velas
redes
estrelas que se afastam da costa

Um sim
aceitação
concordância
uma nuvem
um som humano
farfalhar de redes
grãos de areia
pendular isca canoa luar no mar

Noturno
vai e vai
embarcação
restos do que se pescou na manhã
sagrados sargaços
garças
seriemas
ovas e iuvos vivos

Um navio
parte
na costa de ostras e tédios
na varanda
o balançar de pés e sorrisos
guelras
armadilhas
tochas e mais tochas de olhos e morte.

Cgurgel

livros loucos para serem lidos
livros que se movem
livros loucos para serem sidos
livros que se partem
livros loucos para serem tidos
livros que se ardem
livros loucos para serem vistos
livros que se matem
livros loucos para serem feridos
livros que se caçem
livros loucos para serem mexidos
livros que se marchem
livros loucos para serem torcidos
livros que se manchem
livros loucos para serem cuspidos
livros que se lambusem
livros loucos para serem traídos
livros que se acusem
livros loucos para serem ardidos
livros que se abusem
livros loucos para serem partidos
livros que se recusem
livros loucos para serem sentidos
livros que se expulsem
livros tão tédios
tardios
e inesquecíveis.


Cgurgel

Amanhã não existe
o tempo
é como uma laje fechada
formigas
mijos
feses


Isso
assim
triturado
como uma nuvem
eterna


E o vento
que passa zunindo
abençoa
a senhora


O silêncio
do que não se escuta
parece com o caminho
por onde
todo mundo passa.

Cgurgel

Te dou
unhas

Como
o que restou


Te dou
braços

Sonho
o que levou


Te dou
ímã

Limpo
o que calou


Te dou
cravos

Cinzas
o que passou.


Cgurgel

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008


DAMIÃO EXPERIENÇA ESTÀ VIVO



Silvia D. (silvia@cliquemusic.com)

Existe um homem de aparência meio mendiga, perambulando diariamente pelas ruas de Ipanema com enormes dreadlocks e casacas psicodélicas. Até poucos anos atrás, encontrá-lo na rua também significava, na maioria das vezes, levar pra casa um de seus LPs – inicialmente, ele tentaria vendê-lo, mas se você estivesse realmente duro, a bolacha virava presente. Tendo criado o conceito de Planeta Lamma uns 15 anos antes de a lama de Recife servir de berço para o mangue beat, Daminhão Experiênça é hoje um lenda viva da música experimental e vanguardista brasileira.

Há poucos dias, o compositor que "gosta de apanhar de mulher" foi encontrado no meio da rua por Maurício Valladares, fotógrafo, DJ e titular do programa de rádio Ronca Ronca (que vai ao ar toda quarta, às 22h, na Imprensa FM, Rio de Janeiro e pode ser ouvido no site RoNcaRoNca). Um dos cérebros por trás da histórica rádio Fluminense FM, ele não hesitou em convidar Daminhão para se apresentar numa das festas que promove regularmente em casas noturnas cariocas. Na sexta-feira passada, no Ballroom, o solitário cavaleiro da experimentação musical e poética sentou com seu violão (agora com seis cordas) e se pôs a inventar novas versões para suas velhas canções, cuja fama se espalhou no boca-a-boca, ao longo de décadas.

As músicas de Daminhão Experiênça jamais foram executadas em rádio, envoltas que são em poesia crua, sexualmente explícita, carecendo de refrões e de estruturas de canção. Baixos, guitarras bastante distorcidas e bateria se confundem e se fundem às frases mirabolantes, meio faladas, meio gritadas, mas invariavelmente engraçadas e contundentes: "Olha a cara dele/ olha a cara dela/ quando ele casou com ela/ ela não era moça, não/ oh, yeah/ Daminhão Experiênça entrou em cana/ porque um língua grande caguetou/ ele casou com mulher de segunda mão/ já usada pelo cafetão/ pra ele não ficar na solidão". É difícil precisar quantos discos Daminhão produziu sozinho em seu apartamento ao lado da favela do Morro do Cantagalo, mas calcula-se que seja algo em torno de uma dúzia.

Transação intergaláctica
O ex-operador de radar da Marinha Damião Ferreira da Cruz, 68 anos de idade, saiu pela primeira vez na imprensa em 1977, em coluna assinada por Nelson Motta no extinto Jornal de Música e Som. O jornalista assim descreveu o seu som: "Uma transação intergaláctica que engloba guitarra de uma corda só, gritos lancinantes e estratosféricos misturados a letras de um planeta que só ele sabe o nome." O número de cordas em seu violão ia aumentando de acordo com o número do disco que vinha a seguir. No segundo disco, utilizou violão com duas cordas, e assim por diante. Daminhão inventou uma língua chamada Lammês e uma linguagem de música instantânea.

Ele costumava convidar músicos que encontrava pelo caminho para irem à sua casa, conduzindo as improvisações sonoras que surgiam e em cima das quais cantava, e transformando o som captado, qualquer que fosse esse som, no seu produto fonográfico. Depois, o artista prensava os LPs e os embalava em capas impressas em quatro cores. Ele vendia/distribuía o seu disco em suas perambulações pelas ruas do bairro notabilizado em poesias de Vinicius de Moraes. Como ele conseguia financiar seu trabalho é um mistério que permanece até hoje.

"Estou iniciando o movimento para tornar Daminhão Sir. Sir Experiênça", diverte-se Maurício Valladares, num impulso de resgatar o subestimado artista. A única outra apresentação ao vivo de Daminhão de que se tem notícia aconteceu numa outra festa de Valladares, em 1992. A diferença básica daquela ocasião para o recente show foi que, dessa vez, o bardo do desespero apresentou-se sentado. O violão batucado por ele estava praticamente inaudível, mas ninguém parecia se importar. "Tô tão emocionado, esqueci o resto da letra", repetia o incrivelmente humilde Daminhão a cada canção que abandonava pelo metade. E a platéia urrava cada vez mais alto.

Dentro da música popular brasileira, não há concorrentes ou herdeiros para o estilo musical e pessoal inventado por ele. Ao chegar à casa noturna onde se apresentaria na festa de Valladares, foi parado pelos porteiros, que buscaram o anfitrião: "Tem um cara lá fora dizendo que veio do Planeta Lamma!" O violão, Daminhão carrega num saco de lixo verde, amarrado com barbante. A saúde, fragilizada, ainda não interrompeu sua produção. Ele tem material novo gravado – só falta lançar. Enquanto isso, pode-se encontrar CD-Rs piratas nas galerias de São Paulo, o que é bom e ruim. Bom, porque garante a continuidade da divulgação do trabalho de um artista ímpar. Ruim, porque esse artista ímpar, já um senhor, não vê um tostão em troca do divertimento que proporciona a todos os que o escutam. Há ainda a possibilidade, remota é verdade, de se encontrar um de seus LPs em sebos de disco. É só procurar pelas capas que têm fotos de um homem negro, sorridente, rastafari grisalho. Daminhão Experiença.

PEQUENA BIOGRAFIA SONORA


Bater com as mãos. Escutar o som da rua. Ouvir os outros como quem confessa pecados. Ritualidade. Quando se tem noite, lua e o silêncio do som e da poesia que falamos. Essa acentuada aventura de celebrar poemas e canções. Da sinfonia do pássaro que voa e recua. Orelhas e olhos. Pandeiros e advérbios.
É com a noite que me torno pescador de palavras e de tons. Parecido com o som que que sai da rede que embala praias e varandas.
E o trem que traga trilhos e trilhas sonoras. O trem que vai e vem, repartindo estrofes de uma janela ferroviária que passa e se perpetua. Quânticas imagens cercadas de rosas, promessas de sopros, como nuvens que polvilham sambas, rocks e baiões. Como uma canção que responde a corações e crentes. Que assalta sonhos e sinos, soluçando cortejos e partituras.
Voz que eu canto e me encontro como um beijo guardado a vida inteira. Semelhante a sonatas e sonetos sem datas.
E o som que voce me pediu, sai como um pequeno poema frágil, precisamente parecido com seus pés, que carregam meus pulmões para bem lounge.
Releio como um ventilador que destila verbo e colhe sincronicidades, a cena e o tempo que meu coraçlão sugere.
Sou vocabulário da redenção do humano. Assepsia da celebração do amor e do sorriso que habita a noite insana.
Minha ferramenta é o silêncio. Mesmo que falhe muito. Mesmo que erre o erro vil. Msmo sabendo, que o quê se fala, é fruto de muita azia gramatical.
É como subir uma escadaria, e olhar para trás, e testemunhar os degraus, todos eles, repletos de vírgulas, interjeições, pronomes, exclamações, vogais e consoantes.
Pois eu faço música como quem faz poesia. Pois no meu repertório, cabe escracho, esquadro e espelho refletido. Poesia como quem gosta da noite. E o som que sai da rua que a cidade mora, é o sol que me cabe por inteiro.
Fazer som com a voz que vem do espírito que me carrega. E do olhar e guardar como seu véu, o rastro que percorro. Porque cantar nada mais é do que confessar amores. Despir-se, prometer palavras. O mais, é servir ao tempo, o seu mais precioso segredo: somos todos crianças e sanguinários. A beira de um colapso de versos.

Cgurgel

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008


HÁLITO


Quando soletro o mundo que me língua
eu fecho a narina de ponta banguela
espirro o escarro da boca tão míngua
um escárnio, um salitre, um cuspe, tão fela

Mugido que urge síncope de vaca
trituro do dente como ponte que me acha
quando te beijo um cheiro que voce saca
lábios que calam um cio que não racha

Um cheiro assim de quem bosta
soletro vadio uma rusga do rosto
saliva que ferve que socorre as costas
um riso qual terra onde me encosto

E da palavra que é um verbo que te rele
um catarro que não pasta no canto nela
rito gota do goto, colírio não espere
um arroto, tão escroto, na boca, louca donzela

Fecho o céu que do riso eu cimento
trago sibila que cintila um pigarro
gosma de ruma servida como alimento
da porra, como veia da vida daquele barro.

Cgurgel

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


JOSÉ ARAÚJO FILMA CEARÁ MÍSTICO E FUTURISTA


(Diretor do premiado filme "O Sertão das Memórias" acaba de rodar o longa "As Tentações do Irmão Sebastião")

Ceará, ano de 2020. Num convento em ruínas, numa paisagem pós-apocalíptica, um noviço de uma congregação místico-messiânica é assombrado por imagens do martírio de São Sebastião e lembranças de sua violação, quando criança, por um exu.

Assim se pode descrever, sucintamente, o segundo longa-metragem de José Araújo, "As Tentações do Irmão Sebastião", que ele acaba de rodar no Ceará. Agora em fevereiro, Araújo vai a Roma para filmar durante dois dias as imagens que lhe faltam.

Quem viu o primeiro longa do diretor, o premiado "O Sertão das Memórias" (leia abaixo), sabe que não deve esperar de "As Tentações" uma narrativa linear, enquadrada em algum gênero convencional do cinema.

Como o filme anterior, o novo também mistura ficção e documentário e lança mão de uma linguagem fortemente alegórica, recorrendo principalmente aos signos da religiosidade popular.

"A linha dos dois filmes é parecida, só que agora eu elaboro mais essa linguagem de "transcendentalismo no cinema" (para usar a definição de Paul Schrader), em que as imagens são vistas como ícones religiosos", disse Araújo à Folha.

Outra diferença importante é o tamanho da produção. Embora o orçamento total do novo filme não chegue a R$ 1,5 milhão, o cineasta pôde trabalhar em condições menos artesanais: filmou em cores, em 35 milímetros e contou com atores profissionais.

Rodolfo Vaz, que interpreta o protagonista Sebastião, trabalhou no teatro com o grupo Galpão e com Gerald Thomas e estreou no cinema em "Outras Estórias", de Pedro Bial. O elenco conta ainda com Majô de Castro, Marcos Miranda e Auri Porto.

Como no primeiro filme, a fotografia é de Antonio Luiz Mendes ("Das Tripas Coração", "Ópera do Malandro", "Guerra de Canudos"). Na música, Araújo pretende contar de novo com Naná Vasconcelos, autor da trilha de "O Sertão das Memórias".

Fascinação pela umbanda


Em "As Tentações do Irmão Sebastião", o diretor voltou a trabalhar intensamente com a população dos locais das filmagens (Fortaleza, Itapajé e Castanhão). Foram utilizados quase 1.200 figurantes, além de quatro grupos folclóricos cearenses.

A preocupação maior do cineasta foi a de dar uma visão autêntica da umbanda: "Usei médiuns reais. Filmamos com a ajuda de um pai-de-santo".
Segundo Araújo, no Ceará a influência negra não é tão forte quanto a indígena, por isso a cultura local é mais marcada pela umbanda que pelo candomblé.

"São Sebastião é uma presença marcante na umbanda, como comandante dos caboclos. Corresponde a Oxóssi. Achei interessante investigar como o mito de São Sebastião chegou a nós e foi transformado pelo nosso sentido da sexualidade."

Quando adolescente, José Araújo estudou para padre católico, mas sempre foi "fascinado pela religião popular da umbanda", à qual dedicou o documentário "Salve a Umbanda" (1987).

Hoje, casado com uma indiana budista, acredita que "no fundo todas as religiões são parecidas".

"O Ocidente está redescobrindo a espiritualidade, mas já filtrada pelos EUA", diz. "O Dalai Lama é adorado em Hollywood."

Para Araújo, essa pasteurização da religião é análoga à padronização cultural: "A gente está ficando muito parecido com Miami. Mesmo nas cidades do Nordeste, as áreas de classe média são todas modeladas em Miami".
O cineasta resiste a essa tendência uniformizadora enfatizando em seu filme os signos da cultura regional, como o maracatu, a banda de pífaros e a umbanda.

O trânsito de Araújo entre o regional e o mundial se reflete nos apoios que seu filme recebeu.

Os principais investidores são regionais (Coelce, Telemar, Banco do Nordeste), mas apoiaram também o projeto a Secretaria de Cultura de Nova York, a Associação MonteCinemaVerità, de Locarno (Suíça) e a Guggenheim Foundation. A Videofilmes, do Rio, cedeu equipamentos.

"O meu filme é ambientado num futuro em que acabou a civilização e em que a busca de sobrevivência passa pelo misticismo sertanejo", resume José Araújo, um dos últimos artistas do mundo que ainda conferem valor positivo a esse misticismo. (José Geraldo Couto, Folha de São Paulo)

"Sertão" trouxe prestígio ao diretor


José Araújo surpreendeu o mundo do cinema em 1997, com o estranho longa-metragem "O Sertão das Memórias".

Filmado em preto-e-branco e contando só com não-atores (entre eles os pais do próprio diretor), o filme narrava de forma alegórica uma viagem ao interior do sertão, em que o quadro social atual (latifúndio, seca, exploração) se misturava a personagens e referências bíblicas.

Essa alegoria feroz, que misturava influências de Glauber Rocha e Pasolini, foi pouco vista no Brasil, mas conquistou prestígio internacional.
O filme ganhou o Festival de Toulouse (França), o prêmio da crítica em Berlim e o de melhor latino-americano no Sundance (EUA). No Brasil, recebeu a Margarida de Prata, da CNBB.

Teve distribuição comercial no México e na Suíça e foi exibido pelas TVs da Alemanha, Itália, EUA e México. Foi incluído numa lista de "150 obras-primas dos anos 90" da revista "Film Comment". Tudo isso com um orçamento de R$ 300 mil.

A trajetória de José Araújo é tão surpreendente quanto seu filme. Nascido em Miraíma, no interior do Ceará, estudou no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza e cursou letras na Universidade do Ceará antes de ganhar uma bolsa para estudar cinema na San Francisco State University.

Nos EUA, trabalhou como técnico de som com cineastas como Francis Coppola, Percy Adlon e Gregory Nava e realizou o curta-metragem "Uma Família Mexicana, 14 Anos Depois" (1980).

Quando lhe perguntam quais são suas principais referências no cinema, José Araújo costuma citar Pasolini, Bresson, Glauber, Scorsese e Fellini. Apesar de suas imensas diferenças, todos eles são marcados, cada um à sua maneira, pelo cristianismo.

Não é surpresa. Araújo é um católico praticante apaixonado pelo sincretismo brasileiro, "uma adaptação nossa da expressão religiosa criada na Europa".

Além de "As Tentações do Irmão Sebastião", que ele pretende finalizar ainda no primeiro semestre e levar aos festivais internacionais deste ano, o cineasta prepara um documentário sobre Luiz Gonzaga.

ISABEL DA LOCA, ESSA MULHER É ROCHA

por Paulo Rebêlo


Aos 84 anos, é alcoólatra, fumante compulsiva, tem as marcas do trabalho pesado nos pés, carrega no rosto os profundos vincos formados por anos de exposição ao sol forte, criou-se e formou-se com a enxada na mão. Seus dias parecem se resumir a apreciar, à soleira da porta, a mesma paisagem seca que a acompanha há décadas, olhar as mesmas pessoas que passam por aquele distante pedaço de terra quase perdido na fazenda Santa Catarina, uma região permeada de rochas gigantes a 20 quilômetros de Monteiro, sudoeste da Paraíba.

Isabel, a Zabé da Loca, é sem dúvida uma sertaneja, mas de comum tem apenas a aparência. Porque para um Brasil que desconhece o Brasil, pouco adianta dizer que ela é a rainha do pife, esse instrumento rústico de som agudo, uma flauta com nove orifícios que se assemelha ao oboé italiano, feito a partir de vários materiais. Entre os pifes utilizados por Zabé em quase oito décadas de dedicação, é possível encontrar até um instrumento de PVC.

E é com os pifes e uma pequena banda formada por amigos e familiares que Zabé da Loca roda o Brasil, quase sempre em festivais de música popular. Ao menos “enquanto tiver força para viajar por esse Brasil que é bom todo”, como ela mesma diz, entre uma tragada e outra de fumo-de-rolo, amassado num pedaço de papel tirado do bloquinho de anotações. Haja força e resistência para quem passou quase 30 anos em uma loca (gruta) entre duas grandes pedras, no alto da Serra do Delmiro, nome do marido já falecido, também conhecida como Serra da Matarina.

Foi da loca que nasceu o apelido e depois nome artístico pelo qual é conhecida não apenas no Cariri paraibano, mas em todas as cidades por onde passou e mostrou seu trabalho. O ofício de tocar pífano, ou “pife”, como é mais conhecido por essas bandas, ela aprendeu aos 7 anos com o irmão Aristides, de quem não sabe o paradeiro. Nascida em Buíque, no agreste pernambucano, logo criança veio com a família e outros retirantes para o sertão paraibano, de onde não saiu mais. Trabalhou sozinha com a enxada e conseguiu construir uma casa de taipa na serra, longe de tudo e de todos. “Para ninguém me incomodar”, completa. Dos 15 irmãos, Zabé viu morrer oito: de fome, de doença, de sede, de cansaço.

Zabé conta como foi morar, por necessidade, dentro de uma gruta, no meio de uma fenda entre duas rochas. Após um acidente que destruiu a casa de taipa, sem dinheiro e viúva (o marido morreu de infarto, na mesma serra, enquanto procurava por água estocada nas rochas), foi na pequena gruta que criou os três filhos, que hoje nem sequer a visitam. Ao sair para trabalhar com a enxada, ela cavava buracos nas sombras das árvores e os deixava lá, protegidos por trapos, enquanto ia cultivar a pouca comida que a natureza permitia tirar da terra. Quando o sol se punha por trás das rochas e caía a noite, era o som do pife que minimizava a dor da fome e espantava os fantasmas, dando força para enfrentar o implacável frio noturno do Cariri.

Encontrar Zabé em casa é fácil. Quando não está Brasil afora em apresentações, passa o dia à beira da porta, de olho na rua. Difícil é encontrar a casa. Na estrada que sai de Monteiro em direção ao município de Sumé, é preciso entrar no meio das terras da fazenda Santa Catarina, pegar um trecho de 15 quilômetros de barro e pedregulhos. Várias entradas à frente, chega-se finalmente ao sítio Tungão, onde Zabé mora sozinha em uma pequena casa de quarto e sala, praticamente sem móveis. A surdez se agrava com o passar dos anos. Ela não entende muito bem a saudação, mas abre um sorriso maroto e quase juvenil quando pergunto se é mesmo a famosa Zabé da Loca, a Rainha do Pife.

Não demora e os amigos se reúnem ao redor da casa, que em uma linha imaginária fica a uns 30 minutos abaixo da sua antiga gruta, abandonada há cerca de dois anos, mas que ainda mantém as mesmas características de quando Zabé morava lá.

Conhecer a loca de Zabé é um pouco mais complicado. Ela não tem mais a força de antigamente e, suspeita-se, talvez nem vontade de voltar para revisitar um passado de triste lembrança. Talento reconhecido regionalmente, Zabé foi agraciada pelo governo da Paraíba com dois salários mínimos todo mês (ela ganha um salário do INSS, de aposentadoria como trabalhadora rural) por meio de um programa que premia os mestres da cultura popular. No sertão, com três salários mínimos é considerada “rica”, a ponto de atiçar a inveja alheia, que precisa ser gerenciada pela amiga, vizinha e companheira de banda Josivane Caiano da Silva, tocadora de prato. É ela quem cuida dos remédios e da agenda.

Um dos melhores amigos de Zabé nos leva para um tour pela região ao redor da gruta. Antônio Soares da Silva, o Pitó, mostra o caminho das pedras (literalmente) serra acima, até chegar à loca. São quase 40 minutos de caminhada. Há dois anos, a gruta virou cenário de um luau em comemoração ao lançamento do segundo CD, parte da coletânea Cânticos do Semi-Árido. Foi a última vez que Zabé se aproximou da antiga casa. Pitó mostra como ela usava as pedras para fazer o xerém (canjiquinha, para os paulistas) com o milho e os buracos nas rochas para armazenar água da chuva, procedimento utilizado por quase todos na região. O sol começa a se pôr. Zabé nos espera com touca, manto, um pife improvisado, um fumo-de-rolo e um bule cheio de café passado na hora, no velho fogão a lenha, um dos seus xodós. “É bom todo”, responde, enquanto ajeita o resto de lenha.

domingo, 13 de janeiro de 2008


MAL SÚBITO


Talvez voce tenha razão. É que ando me despedaçando pelos cantos, muros, esquinas. Me procurando pelas vielas, velas, barcos. Embarcações do meu ventre que venta e assusta os meus rápidos passos, frágeis como um pássaro que se cansou de voar. Assim sendo, assim mesmo, sou como uma rocha que blinda sóis e luas. E que vê passar pelo lume de uma ponte escorregadia, os últimos dias de uma temporada que me faz órfão de risadas e tragédias.
Tórrido sol de verão que me embriaga. E torce, como só ele é capaz, o meu coração já tão invadido das fuzarcas mundanas. Um dia, um mês, um ano, uma década. Onde estávamos nós? Na soleira de um enorme precipício? Como flores e fugas que fulminam o auxílio de uma face que vaga ao redor de uma aventura noturna. Serpente que abriga como um traço do seu impávido vale, o pescoço de uma deusa, que já não faz segredo de tudo que a sua beleza, ameaçe.
A alma como tempestade de lascívia, flerta com todos os encantamentos que os trilhos humanos liberam. Os olhos de todos que pedem, aprisionam com seus instantes, um pouco da sua eterna agonia, como centopéias, dragões, furúnculos marítimos. Um tenro e inesquecível redemoinho para nossos corações já tão distantes de uma luz que refizesse como um sonho, o que deixamos de razão. Um totem. Uma fogueira. Uma quadrilha de anéis que se arrastam pelas planíceis das nossas mãos solitárias.
O que se passa hoje pelas videiras e arbustos ciprestes, que se prolongam por toda a planície madura? Uma leviana lua, que vai recolhendo como uma papoula linda e acariciante, o novelo de tantas implacáveis e insuspeitas farturas de além mar.
Quando se acaricia e quando se rasguarda o som da palavra pelos montes de desejos e jogos da carne humana, o que reluz; nada fica como uma sombra que espalha lágrimas e efeitos de uma trilha inesgotável.
As mãos, quando se cruzam, planejam como faróis por dentro da noite que não termina, o loquaz pensamento de uma víbora que fuça e assassina. Assim são todos os vermes que rastejam pela planície de uma cor avermelhada e tonitroante, um idílio de segredos, silêncios e preces. Como uma ronda pelos mares, uma terrível praga, de todos os elementos que compõem, o que antecipadamente se chamou de lâmpada da hiena.
Tanto mar. Uma máscara de horrores. Uma ventania que não pára. Um nó no canto da montanha, onde se celebram o infortúnio dos desencontros. O vôo dos mistérios fartos. Uma pegada de uma lenta e desprezível lembrança.
Como um olhar que arruina o pressentimento de que tudo se cala. Celebrando flechas e fogueiras. Como uma porta com suas infinitas possibilidades de acolhimentos. E de um fogo que sussurra o vento que carrega o dia para bem longe. E de um outro olhar que salpica com o seu mirante, a inefável beleza do adeus.

Cgurgel

MEU MELHOR POEMA: CARLOS GURGEL


Desde menino eu sou vidrado em poesia. Primeiro, eu ficava sentado, à tarde "na calçada da rua do meu avô", em Caraúbas e era aquele encantamento. As rolas cantando nas capoeiras de velame; o chocalho das vacas badalando nas várzeas e os aguapés desabrochando longe, nos açudes. Tenho medo que um dia, no futuro, os meninos não tenham mais essas coisas para se emocionar.
Depois, eu adorava ler os poemas dos livros escolars: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac.
Inspirado neles, comecei a escrever meus primeiros versos, tremendamente românticos. Mais tarde descobri a poesia moderna e, depois de alguma reação, concluí que a poesia havia mudado e grandes poetas, imensos poetas, existiam em todas as épocas, até mesmo entre aqueles que cantam as pedras perdidas do caminho. No meio desta evolução toda, me casei com a mulher com quem sonhara a vida inteira, Zoraide, que me deu nove filhos. Entre eles, Carlos Gurgel, que hoje lança um novo livro, Apaixonada Poesia Louca.
Neste livro, Carlos consegue ser ao mesmo tempo moderno e sentimental.
Peço licença a ele para divulgar aqui dois poemas do seu livro, que dão a exata dimensão do grande poeta que ele é:
1 - "No varal / fotos do passado / me deixam mais criança".
2 - "Partir / é como parar o coração / já tão nômade / Como o piscar / de uma luz norturna / de uma cidadezinha / do interior".
Parabéns Carlos! Eu tenho muito orgulho de voce!

DEÍFILO GURGEL


OS TRÊS REIS MAGOS

Milton Siqueira, libertário, miserável e verdadeiro, produzia versos soltos, alucinantes e cheios de vontades planetárias. Rabiscava em ponta de esquina, dentro de igrejas ou a caminho do mar. Maltrapilho, pedinte vitalício, olhos refratários. Ajuizava e alucinava quem não soubesse do nú e do crú da própria vida. No café "São Luíz", tragava todos os fantasmas, medos e assombrações undeground da província. Atacava com o seu verbo solto, quem lhe apunhalasse desatinadamente. Confessor-mor da dor de quem pede o perdão e de quem trai o próprio sol. Solitário, beberrão e ermitão, navegava com os anjos mentais, atordoando diálogos inter-continentais.
Vagando na noite feito sombra de nós mesmos, não se dispunha ao convívio fácil; gostava mais de besuntar seus cigarros loucos e roucos. Por pouco, em um dia, não extravassou toda a agonia de uma procissão cristã. Costurando corpos e com sua voz gutural, foi fazendo pilheria do que encontrava pela frente. Viveu como poucos. Morreu como todos nós.
Já Walflan de Queiroz, com seu cigarro nutrindo medos, decepções e angústias, abocanhava com seus olhos de amor, o que a gente escondia por trás do papo insano. Sempre na livraria "Universitária", ficava com o olho no além, atravessando a "Rio Branco" como se descortinasse no asfalto pegando fogo e fato, uma nova cordilheira de dândis. Dândis de um aterro minado, cheio de delites vagos, cortes de realidades cósmicas e a cruz divina alicerçando sonhos e dejetos tropicais. Foi com a poesia de Walflan que conheci o submundo da angústia humana.
E Miguel Cirilo? O que dizer do mesmo? O seu "Elementos do Cáos", pressupõe a eterna idade dos nossos gestos. É livro que não finda. Permanece cada vez mais à frente do nosso tempo, essa ilusão dos nossos olhos.
Miguel sofre, como a maioria de nós, do que poderíamos chamar de claustrofobia cênica. Veja ele na rua, na praça ou nos jardins da cidade. Aí sim, temos a exata noção do que podemos sentir de um poeta na mais exata expressão do seu centro: vive como poucos a contradição que o coração requer, enxaguando sábados e domingos.
Com Miguel, o brilho, a razão, o instinto, o desvelo, o espelho e a reinação do mal, são coisas atemporais, e efêmeras, igual a um grito, um espanto no meio da noite.
Com Miguel todos nós somos imortais. Porque, posto que a nuvem do coração humano, bate mais forte quando o perdão e o pecado, moram em uma mesma vala.
Somos barro, todos nós. Sustentado pelas mentiras do passado e pela desesperança do futuro. Igual a um filme interrompido pelo estampido de uma lembrança impessoal.
Com Miguel, a luz dos olhos das crianças, fermentam fé, berros e alegrias circenses.
Sim, porque seus olhos, os das crianças e os dele, como duas antenas, intercambiam fantas, fontes e fintas por entre flores de um jardim imaginário. Soluçam risos, ecos e tempos outros.
Sim, eu sei, que tanto Miguel, tanto Walflan e tanto Milton, são pessoas especiais. Eles (os três poetas), nascem, crescem e produzem o tempo todo, como se fossem máquinas de fiar o avesso do que está ai. Eles estão sempre reinventando tudo. Como o sabor do marinheiro que chega de desvarios marítimos, e preenche com sua simples presença, o que está faltando na boca das pessoas: a sutileza da precisa palavra.
Igual a lua, ao mar, ao vento, e a imensidão dos nossos gestos ao redor do tempo.

Cgurgel

sábado, 12 de janeiro de 2008


UM FIO DE GANDHI


Ouça bem: reinventar o universo é cantar a poesia de quem acredita na vontade das pedras que ladrilham o caminho da liberdade. Como pássaros que cantam o canto da paisagem que nunca é a mesma.
Assim é quem procura e descobre que a vida pode ser o biscoito fino do lado B. De quem, no atalho, demonstra frieza e suados pés. Como reencontro como a música da qual sonhou. De quem conquistou platéias.
Pode ser que Gandhi, na sua íntegra identidade, formule a voz de quem pensa e também voa. Com sua poesia, com seus grafittis, com sua insuspeitada vanguarda, suas paisagens.
Ele, tão bem fermentado, transparece bondade e rebeldia. Disposição e calafrios. E a vontade de brincar com hinos e harpas faiscantes. Provocando sangue e rito.
Pois Gandhi, Marcelo Gandhi, se flecha em copas, copos e cipós da terra, que um dia haverá de brindar com suas sementes. Ele (Gandhi, e ela ( a terra ), serão como a guerra prometida. Despedaçando ossos de quem não partiu.
Pois os cipós que nos são permitidos ver, estão todos maduros e prestes a avançar sinais. Desentranhando do caule e da flor, a paisagem de quem sempre necessitou da lenha , do fogo, da celebração dos nossos olhos e mentes.
A música de Gandhi, a poesia de Gandhi, as cores de Gandhi são profundas. Néon e louca. Elas borrifam e almejam o jardim de quem ousou com suas pétalas, folhas, escolher o caminho que lapida e ultrapassa perdões.
É assim, com gestos e gostos, que a arte que Gandhi cria, eleva o vôo. Ele é dândi, porque além de ser Gandhi, desfolha o brasão que compreende falas. Se comporta no mar que salva corpos. Alimenta a fome de quem jejua.
Gandhi é mensageiro do mais. Ele sempre quer a lucarna. Dentro da esteira que transborda, insufla o exame da verdade que dói nos olhos de quem nunca parou para pensar que somos feitos de átomos, ácidos e azougues.
Assim, todas as letras corrosivas que ele produz, pelas suas mãos desejadas de tontas cores, e de todos seus sons que estejam no íntimo dos que respiram perdidos paraísos; também é crucifixo, ora e devora no mar da descrença, da falta de coragem. Na velocidade que o pensamento dele, compreende ser.
Ele é ex tudo. Anacroniza posturas, fervuras e verduras. No seu jardim, jejua o chá dos cinco recados capitais: agoniza ao redor da maçã que o paraíso partiu, celebra calafrios, silencia no meio da noite que reclama, empalidece a sombra do vultos que aborrece e abriga neblinas de um tempo que se fez cume dos seus emblemas e peças. Somos mortais sim, mas revestidos pelo amuleto que a espinha do sal cinge, e da gema, que a clara do novo atinge.
Pois que Marcelo, com sua infinita bondade, nos brinde com seus anéis que alimentam os sóis que aguardamos e queremos ser.
Que Marcelo com sua cabeça de Gandhi, raspada, tinture todos os nossos pensamentos. Como pintura que requer paixão, incontinência e prazer. Tudo como se fosse o nosso lugar, e ao mesmo tempo, absolutamente cosmopolita.
E que no som de Gandhi, híbrido, tribal, transfiguremos de alegorias. Contagiando o lixo, o léxico, o breu e o céu. De quem dança suspiros e sustos.
E que no seu semblante, de nuvens, fumaças, de vestígios e sombras, organize festins, raves, celebrações, prenúncios e provérbios da nossa infinita ociosidade.
Pois só assim, conjugando hóstias profanas, o seu som, a música de Gandhi; com todos nós, como hóspedes de todo esse beréu divino, promoverá tantos rumores. Estilhaçando a timidez, a sisudez de quem pensa que criar é simplesmente vigiar o portal onde nascemos.
Tudo ao som do seu ser, seu véu. Como uma nuvem que desfolha chuva de amigos. Transmutando-se.
E que no seu cordão encantado, o sangue que ele pulsa é o mesmo que ele pode. E que possa trazer de volta à vida, quem da vida nos tirou. Como só a sua poesia e a sua música conseguem.
E que o universo de Gandhi que está no seu nome, é o mesmo que está lá no lugar enigmático e irradiador de signos, ainda anônimo e incrédulo, mas sabedor de que a terra que queremos é fruto de muita meditação. Como enxague de corpos, no som da liberdade.
Pois Marcelo pulsa. Urra e farreia. Farela o segredo que o sêmen da vida virou. Pois a lua toda branca espelha a esperança da intimidade do ar, que revelou-se toda silenciosa.
E que Gandhi, ao redor dos seus prazeres, possa nos presentear o uivo vivo dos agregados do happenning. Como só a sua sábia mente encerra.

Cgurgel

A COR DO DELÍRIO


A cor do delírio é morena

Eriçada em vermelho quando a toco

Fica à mostra

Se oferece

Emana perfumes secos e intangíveis



Passo a mão nos becos do delírio

E me perco no delírio.



Vicente Vitoriano - Natal / Rn.

REDEMOINHO

Uma ventania que diz para que veio
um curso do rio que me chama de sertão
um furdunço da colméia que é um vaso cheio
e uma menina que me observa no salão

São conchas do ar que eu respiro
como uma lente que se aproxima dos seus lábios
uma vontade louca que me dá como lírios
de soluçar a lua com seus toques múltiplos, vários

É mesmo o véu que encobre teu corpo
que me faz pássaro da sua redondeza
eu quero é mais, eu não quero pouco
igual sua boca de uma impávida beleza

E quando dei por mim eu sonhei
com as lágrimas de uma alegria que não tem tamanho
são como almofadas que sustentam a nossa vez
como um beijo que no seu corpo, eu te arranho

E do que ficou do que me dissestes
eu guardo até hoje como um álbum, um farol
uma concha de um segredo rodeado de ciprestes
do mar, de uma estrela, da lua, da noite, como um anzol.

Cgurgel

ÁRIDO GROOVE

Por Ramiro Zwetsch

O Brasil tem dessas coisas: suas entranhas escondem trincheiras de arte tão autêntica que, vez por outra, é preciso alguém desvendá-las para além de suas fronteiras geográficas. Pois se não fosse o projeto do músico Siba, ex-integrante do Mestre Ambrósio, a música da cidade de Nazaré da Mata corria o risco de não ecoar quanto merece. "Toda Vez Que Eu Dou Um Passo / O Mundo Sai Do Lugar" é seu segundo disco em parceria com a banda Fuloresta – formada em 2002 por veteranos das zoadas de frevo, coco, maracatu e ciranda da região pernambucana.

O resultado é precioso: guiadas basicamente por um toque hipnótico de percussão, poesia cantada em timbres puros e um balé de todos os sopros (trumpete, tuba, sax e trombone), as doze faixas conduzem o ouvinte por um rasante sonoro e inspirador pelas paisagens áridas do norte de Pernambuco. A imaginação voa mais alto ainda com o projeto gráfico assinado pelos grafiteiros Os Gêmeos – uma outra obra de arte, um capítulo à parte dessa jóia audiovisual completa.

O disco tem participações dos guitarristas Lúcio Maia (Nação Zumbi) e Fernando Catatau (Cidadão Instigado), da cantora Céu e de Beto Villares e Arthur de Faria (pianos). A banda Fuloresta é formada por: Siba (voz e percussão), Biu Roque (percussão e voz), Mané Roque (percussão e voz), Zeca (percussão), Roberto Manoel (trumpete), Galego (trombone), João Minuto (sax tenor) e Bolinha (tuba).

Qual a diferença desse disco em relação ao anterior ("Fuloresta do Samba", 2002)?
Siba: Eu busquei uma mudança no trabalho. Foram mais de quatro anos entre um disco e outro, então foi um processo longo em vários sentidos. Houve uma busca musical da minha parte e nós, do grupo, passamos esse tempo todo viajando junto, adaptando a linguagem para o palco. Também busquei um aprofundamento no meu trabalho de texto. São vários caminhos paralelos de busca. Só não sei se eu alcancei todos objetivos.

Na parte musical, como aconteceu essa evolução?
Não uso a palavra "evolução", é uma busca mesmo. Busquei uma musicalidade mais aberta, eu abri a paleta sonora da orquestra, com tuba, sax, trumpete e trombone. Isso abriu as possibilidades de harmonia. No primeiro disco, com uma orquestra mais limitada, eu tinha um ponto de parada. Dessa vez, eu abri um leque harmônico maior. Outra coisa que contribui para essa abertura é uma participação maior de pessoas que não estão ligadas diretamente à música da Zona da Mata. Acho que isso também ajudou bastante.

As letras dão a impressão de serem muito inspiradas em literatura. Você leu muito nesses quatro anos?
Esse processo é mais intuitivo. Meu texto é muito baseado na prática da poesia rimada e eu costumo escrever dentro da mesma lógica dos poetas de rua do nordeste. É rima, métrica e oração. Ao longo desses anos, principalmente quando voltei definitivamente para o Pernambuco, me aprofundei muito na poesia de rua. (Siba retornou ao estado em 2002, após temporada de sete anos em São Paulo). É muito mais prática do que pesquisa. A gente lê, vê televisão, ouve rádio, escuta a conversa das pessoas e se apropria disso na hora da criação. Nesse disco, minha poesia é muito mais direta porque, dentro dessa tradição, é preciso alcançar as pessoas imediatamente. Na rua não tem palco nem luz, muitas vezes você canta durante horas. Eu sempre vi muito potencial nessa linguagem mais direta que, não necessariamente, significa falta de conteúdo.

Há alguma influência de hip hop nessa busca de uma linguagem direta?
Eu tenho muito pouco contato com o hip hop. Tenho proximidade com muitas pessoas que fazem rap, mas o contato estético é muito pequeno. Minha bagagem maior é do rock, escutava muito até os 15 anos. Depois passei a ouvir muito jazz e música africana. Mas eu conheço a turma, né? Rappin’ Hood, Parteum...

Mas essa é uma associação possível, não?
É claro que é possível estabelecer associações. Uma coisa em comum é justamente o fato de que é uma poesia que precisa ser direta, precisa atingir as pessoas diretamente. É para ser cantada e ouvida, não lida. Mas esteticamente são muito diferentes. A poesia do nordeste, como te falei, é muito baseada em rima-métrica-oração. O hip hop é mais aberto e esses dois mundos estão cada vez mais distantes. Algumas pessoas do hip hop buscam uma aproximação, até para alcançar uma identidade brasileira, e eu acho que a poesia do nordeste pode conferir uma função interessante nessa comunicação. Um ponto que atrasa essa troca é o fato de as pessoas se guiarem muito pelos estereótipos. “Hip hop é uma coisa urbana, uma coisa atual. Poesia nordestina é uma coisa de raiz, rural...” Pessoas ligadas à poesia nordestina podem ver o rap como algo agressivo, assim como como algumas pessoas do hip hop podem ver a poesia do nordeste como uma arte comprometida, porque não tem o elemento de contestação. Tudo isso atrasa essa comunicação mas ela é possível e alguns artistas já têm feito isso.

Uma curiosidade desse disco é que você não toca rabeca em nenhuma faixa...
Todo mundo dá mais peso a isso do que de fato isso tem. Eu já sabia que a rabeca não tinha um peso grande nesse projeto, os estilos que tenho praticado não têm rabeca. Quando eu canto na rua, eu não canto com rabeca. E também não nasci com ela embaixo do braço, é só um instrumento. Mas eu continuo trabalhando com ela, tenho dois trabalhos mais voltados para as cordas que pretendo concretizar ainda em 2008. Esse ano preparo um CD com Roberto Corrêa, grande violeiro, uma coisa mais baseada em viola e rabeca, bem acústica. O outro trabalho é um projeto-solo meu, também com viola e rabeca, mas mais elétrico.

Como é trabalhar com harmonias basedas apenas em instrumentos de sopros? É um desafio ou o som sai naturalmente, por conta da experiência dos músicos com esses ritmos presentes no disco?
Não foi tão natural assim, é um trabalho grande de formação de um som. Embora possa soar tradicional para boa parte das pessoas que ouvem o disco, você não encontra isso no trabalho de rua do nordeste. É mais trumpete e trombone, verso e resposta. Esse lance de orquestra que a gente vem buscando é um trabalho bem pessoal de desenvolvimento de arranjos e tal. Aqui pra região, o trabalho não tem nada de tradicional e traz um dado musical novo.

Quais são os ritmos que aparecem no disco?
Não tem nenhum maracatu nesse disco embora ele seja um fato central no meu processo criativo. É a mola propulsora do meu trabalho de texto mas, curiosamente, não entrou nenhum no disco. Mas nos shows a gente sempre toca. O disco tem basicamente ciranda, coco e frevo.

Pode descrevê-los brevemente para quem não os conhece?
Ciranda é um ritmo mais lento, ligado à dança de roda na rua. Uma ciranda pode durar quatro ou cinco horas e tem um estilo de poesia muito próprio. O coco de roda também é um ritmo de dança mas, em geral, se dança solto. Geralmente não tem orquestra, isso é uma coisa que a gente vem desenvolvendo no Fuloresta. Coco é mais percussão, voz e poesia. Ritmicamente, o frevo que a gente faz é parecido com o frevo de Recife. Na parte de texto, nosso frevo é diferente. O de Recife, normalmente tem refrão. A gente chama o nosso de “frevo rimado”, porque é muito baseado em associação de estrofe.

E o ritmo é mais sincopado, né?
Sim, é mais pra cima, acelerado, de carnaval mesmo.

E como se deu essa aproximação com Os Gêmeos?
Essa é uma história interessante porque quando as pessoas perguntam sobre isso, querem encontrar toda uma estratégia de marketing. Mas não tem nada disso. Os meninos conheceram as músicas do primeiro disco em CDs que eles ganharam do Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System, e do Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi. Eles se identificaram muito e ouviam o disco quando estavam montando aquela primeira exposição na Fortes Vilaça, em São Paulo. Depois, no final do ano retrasado, o Itaú Cultural fez um convite para gravação de um DVD com cenografia dos Gêmeos -- e são as pinturas daquele trabalho que compõe o encarte do disco.

E essa aproximação fez com que eles pintassem alguns muros de Nazaré da Mata, né? Como morador da cidade, como vê aquelas pinturas como parte da paisagem?
Nessa época, levamos todo mundo pra Nazaré para gravar um making of do DVD. Eles também foram e conseguiram quatro muros pra pintar. É uma comunicação interessante. Eles sintonizaram uma linguagem gráfica que tem muito a ver com o nordeste rural. Para eles também foi muito legal: eles encontraram pessoas que já viviam na imaginação deles e uma cidade virgem. Foi a primeira cidade que eles pintaram que não tinha nenhum grafitti até então.

As palavras vão comigo
preciso de companhia
o resto deixo contigo
são do bem que te queria

Vou porque tenho de ir
não levo pena de nada
meu sonho foi existir
meu amor, minha estrada

Não recebi que bastasse
ao engano do que sou
e por mais que me entregasse
um morto sempre restou

Entreguei a minha crença
ao nada que me pariu.
Morro da mesma doença
do Deus que me redimiu

Jerusalém minha amada
ai de quem viu tua fronte
tua face ensanguentada
o teu morto sobre o monte

...

Jerusalém, ai de mim!
que não morro por ninguém"!

MIGUEL CIRILO - Natal / Rn.

A PRAIA


Daqui partiram rudes marinheiros,
para as grandes viagens e aventuras,
com suas mãos de mar, calosas, duras,
rasgando novos rumos e roteiros.

Aqui sonharam ternas criaturas
em noites de luar, sob os luzeiros
das cúmplices estrelas nas alturas
e a farfalhante brisa nos coqueiros.

A praia é testemunha da passagem
dos homens, pelos séculos, na viagem
para os distantes e invisíveis portos.

E o pé que hoje a palmilha é o mesmo pé
de antigos ancestrais, mortos na fé,
mortos no amor, onipresentes mortos.

DEÍFILO GURGEL Natal/Rn.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008


JOANA FLOR & SEUS DOIS MARIDOS


Cantora, compositora, poetisa e instrumentista Joana Flor tem formação particular em violão clássico e popular, guitarra, percussão e canto lírico e participou de oficinas com Uakti e José Miguel Wisnik.

Fez parte da Bateria Feminina de Escola de Samba da Escola de Música Villa Lobos (RJ) apresentando-se no carnaval carioca em blocos carnavalescos e na Marquês de Sapucaí. Desde 1999 apresenta-se em diversos bares, restaurantes e casas de show da Zona Sul do Rio de Janeiro e na grande São Paulo.

Trabalhou diversas vezes na direção musical, composição e arranjo de peças e esquetes teatrais adultos e infantis além de compor trilhas para dança e cinema. Estudou Teatro na UNIRIO, participando de diversas montagens teatrais como atriz e cursou Filosofia na UFRJ.
O trio JOANA FLOR & SEUS 2 MARIDOS tem um estilo peculiar de misturar samba, bossa, blues, funk e rock. No primeiro trabalho da banda, o CD homônimo e lançado de forma independente, dá pra notar as influências que vão desde Mutantes, Tom Zé e Jimi Hendrix até Red Hot Chilli Peppers e Led Zeppelin.
O CD foi produzido, arranjado e gravado pelo trio que começou a tocar junto em janeiro de 2005. As composições, versões e arranjos refletem a mistura de gêneros que caracteriza a formação eclética e heterogênea da banda, sempre com muita energia, atitude e personalidade.
Joana Flor & Seus Dois Maridos abriu show de Arnaldo Antunes no festival O Q Difere (São Paulo) e se apresentou na Feira do Livro (Porto Alegre), no Central das Artes (São Paulo) e nas casas noturnas paulistanas Urbano, Enfarta Madalena e Rock Brasil. A banda tem a seguinte formação: Joana Flor – Violão, guitarra, percussão e voz – Cantora, compositora, instrumentista e poetisa com formação particular em violão clássico e popular, guitarra, percussão e canto popular; compõe, arranja e executa trilhas sonoras para teatro, cinema e dança. Markão - Bateria - Dono de uma pegada forte e precisa, começou a tocar bateria aos 17 anos, de forma autodidata, estudando hoje no EM&T, já tendo participado de várias bandas. Ota - Contrabaixo - Formado em piano erudito e regência de orquestra, optou há mais de 6 anos pelo contrabaixo e hoje é veterano na noite paulistana.
Das tantas vozes lindas que existem no Brasil – este país de cantoras como alguém já deve ter dito (e que bonito pensar um país de cantoras!) - podemos ouvir mais uma. Joana Flor (dá para ouvir no site www.joanaflor.com.br ) tem voz com um gato dentro, de cristal alisado, de zinco derretendo, de folhas revolvendo na ventania, de torpor com ócio com sede com lâminas ameaçando cortar sem perigo, só o prazer do perigo.

Conversávamos na casa de Danilo Monteiro, poeta e músico, no domingo (nós e as amigas muito especiais que se achavam aqui em SP: Rafaela, Mariana, Tatiana e Cibele, a outra Tati já tinha ido embora), na verdade, ouvíamos Joana trocando músicas com Fernando Chuí e Danilo e eu fiquei com a impressão de que um animal trafegava na voz da moça. Pensei numa “topografia” ou numa “ritmografia” da voz que pudesse nos esclarecer o que ouvimos, como ouvimos.

Ouvindo Joana (a voz do Fernando eu não consigo descrever) eu pensei na sorte dos conhecedores de vinhos com suas metáforas totalmente gustativas. Não consegui imaginar que outra textura que a do gato com seus pêlos trafegando pelos veios cor de carmin da alma da cantora. Tomara que ela me entenda.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008


CONTO EU


Decerto, Encorpado Franzino não detinha a aureóla de homem do bem. Enfiava ao redor do seu coração da mata, prejuízos noturnos, ajuizando calafrios e tempestades de cigarros falsos. Formigava o desejo de pegar biela através do rio, dorso da cidade imaginária. Falho na retórica do bem bom, armava através dos anos, a sensação de estar sempre começando alguma coisa escorregadia, onde o desejo pelo desafio de estar a carregar nós e mais nós de bocejos, lhe bastava. Vizinho da noite, dialogava com os anjos semi-nús, o vozeirão do estrume da floresta. Costurava o couro do cabelo gasto. Apregoava como demiurgo de uma época danada, a razão do esforço da floresta cultivada de bois matutos, tetas de vacas gordas, assobios de pássaros do além. Disputava a ferro e fogo, o olor das grandes descobertas, e se apinhava feito gente grande, no ziguezague da escuridão do céu. Esplendor do amanhã, gostava de contar coisas falsas, domingos sonolentos. Embrenhava na faca sobre o dorso do cavalo, a iminência de um corte profundo e sem história, feito a luz fugidia despencada pela estrela que cai. Da mangueira do quintal empoeirado, olhava como pássaro medroso, as tentativas do vento de te levar. Dava de ombros. Tinha mais o que dizer. Pela parte da razão, corria feito animal sem coleira, aplaudindo as sementes brotando flor. Quando sentia fome, pensava nos parentes distantes, fotografando como repórter do seu tempo, as panelas de barro, abarrotadas de sonhos, pesadelos e pensamentos da sua cama intacta. Quase quando dava, pegava na enxada e cruzava caminho, abilolando as minhocas já acostumadas com tamanha indiscrição. No eco do vento insano, ia à procura de si mesmo, como teiuaçu esbravejado, torcicolo da terra verde. Da cancela, porteira do paraiso parido, escutava o lamento do boi sem ração; razão da sua própria sobrevivência. Terra oca, enriquecia a língua com o roçado da boa água. Também pudera, dava três passos, e caia feito grilo no cio. De madrugada, quando o tempo se acalmava, procurava por dentro do capim, as redomas de feijão e da cana-de-açúcar do sítio desdentado. No silêncio que vinha do sol, se cobria de desculpas, estudante que se fazia das manifestações da natureza, soberana do pedaço. Alicate de pequeno porte, soletrava rio abaixo, mazelas do brejo cheio de fantasmas para todas as horas. Do fogo que se fazia vida, sorria das suas próprias entranhas, súplica cheia de amor, como o coração dos mais pobres. No outro dia, quando o sol amanhecia, Encorpado Franzino, se fazia de Deus, procurando ao redor do terreno, a gravidade da sua vida, como quem procura o dorso do barro batido. Nunca mais se soube dele. Talvez tenha se encantado. Como as estrofes de uma canção que se perpetua através dos tempos. Cúmplice da sua própria existência. Bem feito, quem mandou ele ser Deus?


Cgurgel.