domingo, 31 de agosto de 2008


CIDA MOREYRA CANTA E CANONIZA CARTOLA EM "AGENOR"
por Heron Coelho

"E atingir o ser da atriz…”
Assim finaliza o belo tema musical de Wisnik sobre Cacilda Becker e seu ofício. O ofício difícil ao qual Maiakovsky dissera em versos, e tantos outros escreveram na busca incessante de compreender esta força e vital necessidade de se expor à luz, por exigência da alma e da criação: o ator, o cantor – o artista.
Lembro-me de ter visto a cantora Cida Moreira interpretando esta canção, há pouco tempo em um show, e naquele momento, sob o foco de luz, ela se refletia em espelhos de sua própria identidade, persona vertida em personagem do canto, se doando e doendo para o público àvido – e o público sempre é ávido para Cida, que nestes últimos anos vem gravando de quando em quando, mas em constante atuação em shows.
Chegou-me às mãos, nesta semana, o disco Angenor (Lua Music, 2008), no qual a intérprete apresenta uma súmula do repertório de Cartola, que comemoraria seu centenário este ano.
Coloco o CD pra rodar e percebo que de imediato se dilui o intuito de “comemoração de centenário”, porque não há luto, mas sim a prova de que Cartola está e continua vivo, numa especie de disco-evocação-embornal com 16 canções, no qual a cantora reitera a alma brasileira de Angenor de Oliveira, o nosso velho e bom Cartola, gravado por Carmen Miranda e Chico Alves, aquele da Mangueira e que lavava carros, andou sumido e foi redescoberto por Sérgio Porto, voltando à tona e gravando discos com sua voz peculiar, e suas canções profundas e estóicas.
Estoicismo, sim, pode ser uma das palavras que defina a obra desse genial compositor, condição geracional dos anos 60, quando Hermínio Bello de Carvalho e Nara Leão, por exemplo, captaram-na ao registrarem sambas de um compositor que a sorrir pretendia levar a vida, em busca de uma alegria-alvorada colorida pelo sol.
Passados mais de 40 anos, e com tantos discos-tributos sobre o repertório do autor (quase todos sempre caindo no lugar comum do “sambista mangueirense de As Rosas não Falam“), a não menos estóica Cida Moreira nos apresenta um repertório que mescla clássicos como A canção que chegou (que abre o disco, e de pronto já diz ao que veio), além de Alvorada (esta em parceria com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Cavalho), Acontece, e O mundo é um moinho, standards do compositor que aqui, em Angenor, recebem um tratamento especial, ao se verem exploradas como “canção” em sua essência, com a intérprete atenta ao texto e à música: cantora e atriz que é, Cida Moreira agora também se torna uma cantadeira de amor, leveza já sinalizada em seu penúltimo CD Uma canção pelo Ar (Kuarup, 2003).
Não entrevistei a cantora para perguntar-lhe de onde surgiu a idéia do disco. Porque, conhecendo sua obra e a forma com que se estabelece a relação entre a artista e a música, este encontro, Cida e Cartola, um dia, seria inevitável. Porque Cida lança mão da inteligência da cantora, na interpretação de clássicos, renovando-os, ao mesmo tempo que mobiliza sua atenção de atriz, ao nos tornar clara a intenção das letras, seus temas, suas profundidades sublimadas em leveza, suas tragicidades camufladas em palavras bem ditas-cantadas, fazendo do disco uma rapsódia de Cartola, uma radiografia de sua obra, num pequeno e discreto disco, elegante e nobre como o velho mangueirense.
Pérolas raras como Feriado na Roça, Nós Dois, Fim de Estrada, Senões e Sim aparecem como canções “feitas ontem”, numa abordagem moderna inédita nos dias de hoje: ao tratá-las como intérprete, Cida não as iconiza em arranjos e interpretações estriônicas, e por isso mesmo consegue trazê-las à tona, novas em folha, como numa primeira e definitiva gravação.
Estilista da música, como bem a definira Hermínio Bello, Cida Moreira e sua equipe de arranjadores e músicos conseguem obter um resultado mais que satisfatório, ultrapassando os limites esperados pela “máquina fonográfica”, priorizando o valor da canção em seu cerne (na confluência plena entre a melodia e a letra, música e arranjo).
Tudo resulta num roteiro que nos remete a um filme, a um grande romance moderno, com suas personas e personagens, em suas buscas e aflições, peitos vazios e autonomias represadas nesse moinho mundo moto-contínuo que o poeta Cartola platonicamente enxergava sob suas grossas lentes escuras.
Angenor nos chega como um presente secular e atemporal, feito por quem compreende que o ouvinte quer aguçadamente sentir, perceber e ao mesmo tempo se deslumbrar com a poesia da música, e a música da poesia.
Em um dos sambas, o desconhecido O Silêncio do Cipreste, em parceria com Cachaça, tem-se um vaticínio:
Todo mundo tem o direito
De viver cantando
O meu único defeito
É viver pensando
E viver pensando torna-se, aqui, uma dádiva nestes tempos sombrios atravessado por nossa música popular, pois o pensamento aliado à alma criativa de uma obra e de uma intérprete nos lega, neste Angenor, um disco-cânone, irretocável, que há de atravessar o tempo com sua luz “vacilante e incerta” para alguns poucos, mas iluminadamente ofuscante para os que compreendem a música como uma alvorada que surge com folhas a voar, brotando e minando sonhos passados que estão, e estarão, sempre, em nosso presente.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

" A VELHA A FIAR " - HUMBERTO MAURO

terça-feira, 26 de agosto de 2008


DIÁSPORA

assim éramos na caverna
simples e solidários
com o tempo
com o mundo

o homem emudeceu
ficou pedra e água
liquidificou-se

e eu?
procuro estrelas e bordo verões.

Cgurgel

domingo, 24 de agosto de 2008


ÊXODO

e agora
que as rosas
se foram


só resta
colhê-las
e frutificá-las.

Cgurgel

segunda-feira, 18 de agosto de 2008



POUCO

o que resta ainda em mim ?
talvez essas sandálias errantes
esse minúsculo bigode
ou esse cântaro de folhagens e estios?

quase
quase nada

só um espectro cansado
como lança de uma chama no ar
e desse mar circunspecto
que eu olho
e me passo

em mim
nas minhas juras
e nesses meus cestos do fim ?


Cgurgel

TRÊS IRMÃOS DE SANGUE
por Márcia Arbache
O documentário "Três Irmãos de Sangue", sobre a vida dos irmãos Betinho, Henfil e Chico Mário, e com direção e roteiro de Ângela Patrícia Reiniger (contando com Cristiano Gualda como co-roteirista), foi lançado no dia 17 de agosto nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador.
“Quisemos prestar uma grande homenagem ao Betinho, dez anos após a sua morte, e também ao Chico e ao Henfil. O filme fala desses três brasileiros que fizeram da solidariedade a sua grande arma na luta pela vida e que ajudaram a tornar o Brasil um país mais justo e solidário”, afirmou Ângela Patrícia Reiniger.
Exibido em maio no Festival de Cinema Brasileiro de Paris 2007, o filme ganhou o prêmio de melhor filme no V Cinefest Petrobrás – Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque 2007, após votação popular. O filme também ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Goiânia de 2006 e no Recine 2007, além da menção honrosa no Femina Fest deste ano, tendo sido o único representante brasileiro na competição internacional de longas. Além disso, o documentário já foi apresentado no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado.
O documentário é realizado pela No Ar Comunicação, com o patrocínio da Petrobras e distribuição do Estação. O Estação, que se especializou, na distribuição, em lançar clássicos do cinema mundial, filmes independentes e cinematografias pouco difundidas, iniciou, em 2006, um projeto de promoção e distribuição de filmes brasileiros, priorizando produções inovadoras e alternativas, como "O Cheiro do Ralo", que superou a marca dos 150.000 espectadores, "Fabricando Tom Zé" e "Pedrinha de Aruanda - Maria Bethânia".
O filme mostra a vida de cada um dos três irmãos e como suas ações se misturam com a história política, social e cultural do Brasil na segunda metade do século XX. Eles contribuíram, cada um a sua maneira, para as principais transformações pelas quais passou o povo brasileiro nesse período. Betinho, cientista social, exilado político, fundador da Campanha Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida, e indicado em 1994 ao Prêmio Nobel da Paz; Henfil, cartunista que lutou pela volta dos exilados durante a ditadura militar e criou a expressão “Diretas Já” como forma de exigir a volta da democracia ao Brasil; e Chico Mário, músico pioneiro na questão da música independente e compositor de canções contra a tortura. Os irmãos definitivamente sabiam da importância da defesa dos direitos humanos e se esforçaram ao máximo para alcançar esse objetivo.
Hemofílicos, foram contaminados pelo vírus HIV através de transfusão de sangue. Isso os tornou um símbolo da luta contra a AIDS no Brasil. O fato do país hoje ser visto como referência mundial no combate à AIDS tem muito a ver com o pioneirismo deles em relação a essa causa. Para eles, a luta pela vida sempre esteve em primeiro lugar.
Como diz Frei Betto no início do documentário: “Eram três irmãos embriagados de utopia, no sentido forte dessa palavra, não apenas como um sonho, mas como um projeto que os engajou numa militância permanente”.
Já Zuenir Ventura, de O Globo, diz que: “A diretora conseguiu mostrar, sem pieguice, bem ao estilo dos três irmãos, como a luta contra a morte pode ser uma exemplar lição de vida”.
Luiz Zanin, do Estado de São Paulo, fala que se trata de “Um belo e emocionante filme, que traça a saga de uma família e também de um período, tanto difícil como épico da história recente”.
E o colunista Sebastião Nery afirmou que “O impacto e mergulho humano do filme vêm da história contada para ser pensada e absorvida. É todo um levantamento histórico, minucioso, sério, biográfico, mas principalmente político, social, de Minas e do Brasil, a partir dos anos 50 até a ditadura de 64 e as batalhas da resistência, do exílio, da abertura, da anistia, das Diretas-Já. Ângela Reiniger não fez um filme de pessoas. Fez um filme do tempo”.

Ângela Patrícia Reiniger - diretora/roteirista do filme
“Três Irmãos de Sangue”
Nascida no Rio de Janeiro em 1971, Ângela Patrícia Reininger formou-se em Jornalismo pela PUC-Rio. Iniciou sua carreira profissional na MTV e depois trabalhou na Videofilmes, como produtora e pesquisadora dos projetos Caetano 50 anos (1992), série para a extinta TV Manchete, e João e Antônio (1992), especial de fim de ano da Rede Globo de Televisão, sobre João Gilberto e Antônio Carlos Jobim.
Esteve por seis anos à frente do programa Mãe & Cia., que estreou em 1998, no GNT, e depois foi apresentado pela TV Cultura. Ângela dirigiu também os curtas-metragens Os Oficineiros da Inclusão e O Aprendiz e o Mestre. Desde 2004, dirige a série Programa Especial, apresentanda pela TVE/Rede Brasil.
“Três Irmãos de Sangue” é seu primeiro longa-metragem.



EU LEIO E VOCÊ CANTA
por Felipe Fortuna

Um modo objetivo de estabelecer a diferença entre “letra de música” e “poema” leva a reconhecer que “poema” é toda composição, quase sempre em versos, que não gera direitos autorais. Imagine-se Caetano Veloso unicamente como autor de Letra Só (2003): decerto auferiria os ganhos irrisórios, praticamente indignos, do excelente poeta Affonso Ávila, que, aos 80 anos, acaba de reunir sua obra poética em Homem ao Termo. Por não ser músico, tampouco seria possível que o poeta mineiro visse a sua obra bipartida num songbook, ao contrário do que aconteceu com o compositor baiano, que teve algumas de suas composições transcritas, em dois volumes, por Almir Chediak. No prefácio a Letra Só, Eucanaã Ferraz comenta o “ato de desarticulação/arranjo” que justifica a aparição da “letra de música” num livro sem partituras: “nesta condição de letra só, contrariando sua natureza de letra em melodia, a palavra passa a viver artificialmente a condição de escrita.” Trata-se de uma advertência que tenta precaver o leitor para muitos versos afinal inaceitáveis ao gosto de quem costuma ler poemas. Em “Tempo de Estio”, por exemplo, Caetano escreve:

Quero comer

Quero mamar

Quero preguiça

Quero querer

Quero sonhar

Felicidade



É o amor

É o calor

A cor da vida

É o verão

Meu coração

É a cidade.

Obviamente, a linha que vai da existência de direitos autorais à existência de melodia passa pelos territórios do mercado e da música: encontram-se nessa travessia praticamente todos os fenômenos que dizem respeito à canção, distinguindo-a do poema literário. Para tanto, ninguém precisa exibir a desordem conceitual da professora Heloísa Buarque de Holanda quando, no prefácio à antologia Esses Poetas (1998), afirmou que “em caráter irrevogável, a distinção entre a poesia escrita, a cantada e a visual não se sustenta mais como defensável.” Revogue-se a autoritária declaração por meio do depoimento de dois poetas e letristas, Antonio Cícero e Arnaldo Antunes. Em artigo para a Folha de S. Paulo (16.06.2007), o poeta de Guardar (1996) escreveu que “o poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. (...) a letra se realiza na canção, mas a canção só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e escutada.” A conclusão não poderia ser outra: “um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. (...) Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria.” Por sua vez, o ex-líder dos Titãs, em entrevista à revista Cult, reconhece que “letra de música é indissociável da melodia. Canção é canção”, mas lamenta a persistência de uma desvalorização desta em relação ao poema escrito.
Ora, o mercado indica que a desvalorização ocorre, justamente, na edição e distribuição do poema e, ainda mais radicalmente, na divulgação e no consumo do poema. Quanto ao status superior do poema em relação à canção, somente ocorre pela insistência, muito peculiarmente brasileira, em aproximar códigos diferentes. Em países de vasta e consolidada tradição literária, é impossível que o cancioneiro seja incluído no cânone dos poemas: não se imprimem as letras de Paul McCartney ao lado dos poemas de Philip Larkin – ainda que o poeta tenha escrito “

As relações sexuais começaram

em mil novecentos e sessenta e três

(o que chegou tarde para mim) –

entre o fim da censura a Chatterley

e o primeiro LP dos Beatles.

Parte da confusão existente quando se pretende distinguir “letra de música” e “poema” ocorre, ironicamente, pela imprecisão do termo “poesia”. Até mesmo os nossos dois dicionários básicos, o Aurélio e o Houaiss, definem “poesia” como “composição poética de pequena extensão”. O adjetivo “poética” é redundante em ambos os casos, uma vez que se vê definido como “que tem ou encerra poesia”. Nesse sentido, os 96 versos de “A Máquina do Mundo”, por sua extensão, não seriam “poesia”, ainda que o poema de Carlos Drummond de Andrade seja um ponto alto da meditação filosófica em literatura, na tradição camoniana. Lamentavelmente, muitos se põem a perguntar, por equívoco, se “letra de música” é “poesia” (por que não seria?), quando pretendem, de fato, questionar a distinção entre “letra de música” e “poema”. Uma ironia suplementar diz respeito à “letra de música”: o fato de que esta é sempre uma composição de pequena extensão (a ocupar, quando impressa em livro, apenas uma página) e, portanto, confundindo-a uma vez mais com a definição tradicional de “poesia”.
A oralidade intrínseca à “letra de música” produz, algumas vezes, não apenas versos memorizáveis, mas equívocos que dificilmente se encontram no “poema”. Almir Chediak explica que “quando todos pensam que o final da letra de “Trio Elétrico” [de Caeteno Veloso] é ‘o trio elétrico o sol rompeu no meio di, no meio-dia’ ou ‘o trio elétrico só rompeu’ (...), na realidade ele termina por ‘o trio eletro-sol rompeu no meio di, no meio-dia’. Ouvindo o disco fica quase impossível entender a maneira correta (...).” Quem de fato produz ou produziu tanto a “letra de música” quanto o “poema” – a exemplo de Vinicius de Moraes, Waly Salomão e dos citados Arnaldo Antunes e Antonio Cícero – sabe que a distinção entre os termos não é nem acadêmica, nem inoportuna, nem desnecessária: representa, para surpresa dos amadores, uma estratégia para o consumo, um posicionamento intelectual, um depoimento sobre a obra.
A insistência em considerar a “letra de música” um objeto a ser cogitado no cânone literário deveria, por outro lado, dar início à revisão imediata das antologias de poemas no Brasil: todas exibiriam, sempre que possível, as canções que se notabilizaram antes mesmo de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) com sua “Ó Abre Alas”. Caso contrário, essas antologias precisariam justificar por que a sofisticação das canções e sua aspiração a serem poemas literários coincidem com o período a partir da Bossa Nova, quando a modernidade da música popular brasileira se projetou no país marcado pelos arcaísmos, pela escassa educação e pelos baixíssimos índices de leitura.

domingo, 17 de agosto de 2008



SABOROSA RECEITA
por Ramiro Zwetsch

O segredo da receita musical do 3 na Massa está no molho picante. Com um menu de 13 faixas, o projeto reúne três dos melhores chefs do groove brasileiro: Rica Amabis, produtor do núcleo paulista Instituto, Dengue e Pupillo – baixista e baterista da Nação Zumbi. A convivência do trio sob um mesmo teto estimulou a criação de bases e o caldo engrossou com um ingrediente afrodisíaco: diferentes vozes femininas em interpretações sussurradas e teatrais.
“Os dois alugam um quarto aqui em casa quando ficam em São Paulo. Foi uma osmose natural”, explica Rica. Das conversas e jams surgiu um conceito: um disco pra abordar o universo feminino, com letras cantadas por mulheres e escritas por homens, que escrevem como se fossem elas. “Pensamos nessa parada do Chico Buarque, de o letrista se botar no papel da mulher. O disco tem esse roteiro meio definido: é como o homem vê a mulher”, define o produtor.
As letras saem da boca de cantoras como Pitty, Thalma de Freitas e Nina Becker – a dupla da Orquestra Imperial – e atrizes como Alice Braga, Karine Carvalho e Leandra Leal (que canta em francês), e o cenário sugerido pelo arranjo é o de um cabaré esfumaçado pelos tragos do ator e músico francês Serge Gainsbourg. “Não tivemos a pretensão de sermos geniais como ele, mas ouvimos muito durante a composição”, diz Dengue. “Ele é um dos homenageados, junto com os cartunistas Milo Manara e Carlos Zéfiro”, fala Pupillo. A inspiração das HQ’s embriaga os arranjos visualmente instigantes. Cabarés, pornochanchadas e hotéis baratos aparecem em um timbre de teclado, em uma levada de guitarra, de um acorde de vibrafone – cortesias de músicos como Maurício Takara (multiinstrumentista do Hurtmold), Fernando Catatau (compositor, cantor e guitarrista do Cidadão Instigado), Luca Raele (que toca metais no Sujeito a Guincho) e Bactéria (tecladista do Mundo Livre S/A). Outra atriz que empresta a voz é Simone Spoladore (de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias). “Já tinha feito algo parecido com poemas de Hilda Hilst, acompanhada de um violão”, diz. “Tentei gravar como uma brincadeira, assumindo meu prazer.”
Entre os marmanjos letristas, estão Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Junio Barreto – agraciado com o privilégio de oferecer versos para duas faixas, entre elas, “Doce Guia”, cantada por Céu. “Pensamos em uma interpretação ao pé do ouvido, menos cantora, mais faladinha”, diz ela.
Lurdes da Luz, MC do Mamelo Sound System, é a única que canta seus próprios versos. “Eu imaginava uma levada diferente pra letra. Mas, quando ouvi a base, tive que repensar tanto a levada quanto a interpretação”, conta. A mudança de ambiente desafiou o parceiro de Lurdes no Mamelo. Acostumado a escrever raps, Rodrigo Brandão encaixou letra em melodia pela primeira vez em “Estrondo”, cantada por Geanine Marques. “Foi como tomar uma droga nova e sentir que bateu bem”, viaja.
Tantas participações poderiam azedar o molho. Porém, a audição revela um cardápio não só farto como autoral. “Você tem o baixista e o baterista da melhor banda do Brasil. A produção do Rica completa a química”, decifra Thalma, que canta em letra de Jorge Du Peixe.

sábado, 16 de agosto de 2008


DOIS

dois
são como mundos diferentes
tão de costas e tão de frente
pode ser um amigo, um parente

dois
pode ser uma moeda
uma cara, uma coroa
ou simplesmente estar na boa

dois
são mais do que dois
pode ser quatro
ou uma cena de teatro

dois
pode ser o infinito
o coração, o céu, o instinto
ou simplesmente, meu absinto

dois
mais do que eu possa dizer
é como o chão, uma pedra
e tudo do que o amor cega.

Cgurgel

A.NOITE.CEU

vem a noite
e com ela
as minhas sombras
cobertas de rastros e donzelas?

como farei para ser seu confidente?
nessa noite fria e caliente?

pois aqui
além da janela da noite
o céu me oferece
seus alicerçes e quintais

assim
entre o céu e a noite
eu estou

e eu penso mais
eu quero mais

pois eu sou
seu céu
e sua noite
que passam.

Cgurgel

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

MAYRA ANDRADE & MARIANA AYDAR - " TUNUCA "




CALABOUÇO


mentes
para que aguentes
tudo tão agudo e crente

mentes
como sandálias mofadas
como mãos atadas, cortadas

mentes
por entre dentes e deus
binóculos e museus

mentes
pois mesmo que mintas tanto
já não vês o canto, o quanto

e assim
nessa redoma de medos
mentes mais
porque só assim
a ti, é permitido ser mais.

Cgurgel

quinta-feira, 14 de agosto de 2008




OS MANDAMENTOS


termos de labuta:
ossos, girândolas e devaneios
uma massa tão graxa compacta
anonimamente decrépita

termos de conduta:
pensamentos e vãos de véus
uma infinitude de chagas
entre o chão e o sinete

termos de escuta:
tudo do que o doente precisa:
dentrifícios, organismos e gás
e mais um acompanhante

termos de disputa:
oleaginoso céu
descartes, sombras e girais
tempo que sufoca o nexo

termos de estufa:
recolher todos os barbitúricos das janelas
arrastar para as alfândegas os despossuídos
e assistir o que do destino não muda.

Cgurgel

quarta-feira, 13 de agosto de 2008



BIBLIOTECA NACIONAL LANÇA A I BIP
Brasília vai receber os poetas em setembro

Enquanto prepara o seu acervo, a Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), sob a direção do poeta e professor da Universidade de Brasília Antonio Miranda, trabalha paralelamente na organização da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (I BIP), um projeto arrojado, que visa a tornar o DF um solo fértil à produção de qualidade e celebração da poesia. A preparação do evento contou com o apoio de parceiros variados, em discussões sistemáticas promovidas na BNB, desde setembro de 2007.
Desde então, mais de uma centena de poetas brasileiros e estrangeiros foram convidados a participar da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (I BIP), que será realizada de 3 a 7 de setembro, em diversos espaços culturais da cidade. O evento reunirá as novas tendências da poesia contemporânea brasileira e internacional escrita, falada, cantada, visual, performática e digital.
A Bienal nasce em ano pródigo, quando Brasília conquista o título de Capital Americana da Cultura. Mais: tem a sorte de somar-se em parceria à 27ª Feira do Livro de Brasília e ao Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, uma vez que coincidem no período de realização e somam-se na agenda interartística de cada um. Embora tenha a poesia por linha mestra, o programa da I BIP é interativamente pertinente com cinema, performances, música, artes plásticas, oficinas educativas e espetáculos teatrais.


A programação da I BIP resume-se em:
Sessões Magnas - dedicadas aos poetas estrangeiros e brasileiros convidados, consistem em leituras de poemas pelos autores, na língua original, com tradução projetada em telão. Serão realizadas no auditório do Museu Nacional, Praça do Conjunto Cultural da República, nos dias 4, 5 e 6 de setembro, em duas sessões: de 18h30 a 19h30 e de 20h a 21h, com entrada franqueada ao público. As sessões serão conduzidas por oito convidados, representantes da poesia brasiliense.
Simpósio de Crítica de Poesia – coordenado pela professora da UnB e poeta Sylvia Helena Cyntrão, será realizado de 3 a 5 de setembro, no Anfiteatro 9 da UnB, com certificado. É voltado ao público em geral, mas especialmente a professores e alunos de literatura, escritores e jornalistas, e vai abordar a poesia em diálogo com o cinema, a canção, as artes visuais, o ensino, o gênero, a imprensa, a memória, mídias contemporâneas, o teatro, tipologia do discurso e tradução. Participam especialistas das cinco regiões do País nos debates dessas 11 Mesas Temáticas. Inscrições abertas em www.bienaldepoesia.unb.br.
Oficinas – gratuitas e abertas a inscrições via www.bienaldepoesia.unb.br, serão realizadas na BNB: Desinventando a Poesia, com Fabrício Carpinejar; Haicai, com Alice Ruiz; Fanzine, com Manuela Castelo Branco; A Arte de Ler Poesia, com Adeilton Lima; Livro Artesanal Dulcinéia Catadora, com Lúcia Rosa; Rompendo Paradigmas, com Anand Rao; Viva a Poesia em Braille, com Dinora Cançado; Letras do Barro, com Evelyn Kligerman; Criatividade em Superdotação, com Olzeni e Josué Mendes; Criação de Rap, com Wander Filho; Haicai para Crianças, com Paula Ziegler.
Palestras – serão realizadas no auditório e no Café Literário da Feira do Livro de Brasília e destaca-se: Poesia Erótico-Fescenina, do cineasta e poeta Sylvio Back.
Poemação - consiste em sessões de recital de poesia e de canção e projeções de vídeos poéticos em seqüência de apresentações, com programação pré-definida para poetas da cidade, nacionais e estrangeiros, mas abrindo também espaço a apresentações espontâneas de outros interessados em participar. Será realizado no Café do Conjunto Cultural da República e no Café Literário da Feira do Livro de Brasília, mas também no circuito noturno da cidade, em espaços como: Café Martinica; Bistrô Bom Demais (CCBB); Rayuela Bistrô e Livraria; Café com Letras, assim como no SESC Taguatinga e na Casa do Cantador (Ceilândia), entre outros.
Lançamentos de livros de poesia – Serão realizados coletivamente na Feira do Livro de Brasília e na Praça do Conjunto Cultural da República, abertos à participação dos poetas interessados, assim como individualmente, nas sessões de Poemação, onde os poetas inscritos estiverem programados para participar.
Antologias – Estão em preparo para lançamento na I BIP três volumes: Antologia Oficial da I BIP (dedicada aos poetas estrangeiros e nacionais participantes do evento); Deste Planalto Central (antologia de poetas de Brasília); e Antologia Tributo ao Poeta (reunindo textos dos poetas homenageados com recitais pela BNB em 2007-08).
Exposições – No Museu Nacional, sob curadoria do diretor Wagner Barja, será realizada a Exposição de Poesia Visual Obranome2, reunindo nomes importantes de artistas do ramo e tendo como poeta visual homenageado Wlademir Dias-Pino. Outras dez mostras estarão expostas em todo o 2º andar da BNB, entre elas a de Revistas Literárias (curadoria de Paco Cac), A Lisa Escolha do Carinho, de W. Dias-Pino e A arte de Reynaldo Jardim, além da Carcaça, que o poeta Nicolas Behr vai expor no térreo da Biblioteca.
Mostra de Cinema-Poesia – No Cine Brasília, de 4 a 7, às 16h30 e 20h, serão exibidos os longas Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro (de Sylvio Back) e Castro Alves, Retrato Falado do Poeta (Silvio Tendler); o média-metragem brasiliense Viva Cassiano! (B. Bernardes); e os curtas A Babel da Luz (Sylvio Back); O Poeta (Paulo Munhoz); Assaltaram a Gramática (Ana M. Magalhães e Ivan Freitas); Cora Coralina, O Chamado das Pedras (W. Pina e Adriana de Andrade); e Cora Doce Coralina (Vicente Fonseca e Armando Lacerda). A programação visa a atingir em especial o público estudantil médio e superior.
Shows – Um show poético-musical de Arnaldo Antunes vai abrir o evento na noite de 3 de setembro, em palco montado na Praça do Conjunto Cultural da República. Antes será apresentado, no auditório do Museu, Nacional, o recital Em Cena Com Affonso Romano de Sant’Anna homenageado do Simpósio de Crítica de Poesia pelo Grupo Vivoverso, coordenado por Sylvia Cyntrão. Estão previstos os shows O Grande Barco, do poeta brasiliense Sids Oliveira; a performance do hip-hopper paulista Maickuclear e o recital poético-musical de Claufe Rodrigues (ex-integrante do triocarioca Os Camaleões).
Espetáculos teatrais – Integram a programação da I BIP o monólogo Abraham Cesar, do ator peruano Fernando Fernández, baseado na poesia de Cesar Vallejo, e as peças Sobre Anjos e Grilos e El Año de Ricardo -- da programação do Festival Cena Contemporânea, evento parceiro da I BIP.
Concurso de Poesia em Superdotação – Promovido pela Secretaria de Educação do GDF, é dirigido a estudantes de altas habilidades e irá premiar um aluno da rede pública de ensino de cada UF, ligados aos Núcleos de Atendimento a Alunos de Altas Habilidades/Superdotação (Naahs). Patrocinados pelo MEC, os garotos virão a Brasília para o lançamento da antologia que, patrocinada pela Embaixada da Espanha, reunirá os poemas premiados em versão português-espanhol.



CARTOGRAFIA WEB LITERÁRIA


A Web (e especificamente a Internet) chega como um suporte potencial de trocas e já desbanca grandes corporações de informação e editoras; descentraliza o acesso do público a obras e questionamentos literários (e outros) — que antes só poderiam ser acessados via grandes editoras, com esquemas empresariais de distribuição nacional, e órgãos da imprensa com seu jornalismo cultural respondendo a grandes interesses.
Agora qualquer um pode ter um blog, escrever o que quiser, montar seu site, espiar o que amigos e inimigos estão escrevendo, contatar escritores, trocar textos, arquivos, idéias, criar seu e-book.
Há informações que circulando apenas pela Internet já pressionam políticas e governos. Geram novas posturas culturais. Um novo mundo, quem sabe admirável, está sendo criado por esta geração que já domina a linguagem e ferramentas da Web como se fossem um novo abecedário.
Observamos que com a Internet, novos grupos e movimentos são gerados da noite para o dia, com visibilidade exponencial. Além do mais são várias possibilidades ainda inexploradas, ou mal exploradas até então. Se tudo isso não bastasse, com a Internet as fronteiras foram efetivamente abolidas. O muro desabou e ainda não sabemos o que fazer com isso. Mesmo a língua já não é mais uma limitação e sim um rico potencial de troca e assimilações culturais.
Todo grande momento histórico como esse precisa ser pensado e analisado enquanto os rumos ainda estão incertos e os ganhos (e perdas) não foram contabilizados.
Sabemos que a Literatura permeia de algum modo todos os aspectos da Cultura. A Literatura é o espelho — quando não a própria matriz — dos fundamentos essenciais de nossa civilização. Por isso o casamento dela com as possibilidades libertárias e as múltiplas ferramentas que a Web disponibiliza geram a faísca que poderá iluminar toda uma época.
Para discutir este momento histórico propomos este ano o Cartografia Web Literária: uma reflexão sobre os rumos da Literatura com o advento da Web. Os rumos dos conteúdos culturais e informacionais em época de faça-você-mesmo.
As várias mesas de discussão e apresentações que acontecerão durante a semana de
Cartografia, contarão com uma parcela bem representativa dos protagonistas e mentores deste processo no Brasil. Profissionais, pesquisadores, editores, escritores, blogueiros, artistas multimídia, webdesigners, acadêmicos, pesquisadores na área de web arte, performers, poetas multimeios, músicos, professores, internautas e o público em geral estarão trocando experiências, questionando e repensando o próprio fazer (a poiésis) deste momento tão instigante.

12 terça 19h

As Zonas De Exclusão Do Mercado Literário E O Papel Da Internet

Na primeira noite do evento, escritores e intelectuais de várias regiões do país debaterão sobre o mercado editorial brasileiro e as dificuldades para a inserção de autores que não publicam ou não transitam pelo eixo sul (onde há a concentração de capital, editoras e empresas de distribuição). A Internet veio reconfigurar a cartografia literária brasileira? Em que sentido a Internet contribui para o fortalecimento e fomento da Literatura? A qualidade das criações literárias foi influenciada de alguma maneira pela Internet?

Debatedores:
Heloisa Buarque de Hollanda [pesquisadora e curadora] – RJ
Fabrício Carpinejar [poeta e blogueiro] – RS
Carlos Emílio C. Lima [ficcionista e editor] – CE
Vicente Franz Cecim [poeta] - PA
Raimundo Carrero [ficcionista e professor] - PE
Mediador: Edson Cruz [poeta e editor do portal Cronópios] - SP
Encerramento: Leitura de textos com os escritores e Performance apresentada por Lúcio Agra.

13 quarta 19h

Publicação E Distribuição Da Literatura Em Tempos Digitais

A segunda noite recebe escritores e editores que começaram, ou firmaram sua escrita e interferência no meio literário, em blogs, sites ou coletivos de literatura. Quais os caminhos da publicação e da distribuição da literatura em tempos de Internet e a importância de sites e blogs na trajetória de autores, iniciantes ou não, serão os temas do debate. Haverá telões onde os sites e blogs poderão ser mostrados e comentados.

Debatedores:
Clarah Averbuck (http://adioslounge.blogspot.com/)
Ana Paula Maia (http://killing-travis.blogspot.com/)
Cardoso (André Czarnobai)(http://qualquer.org/salsbury/ )
Artur Rogério NÓS PÓS coletivo de Recife (www.nospos.blogspot.com)
Lima Trindade, editor do VERBO 21/BA (http://www.verbo21.com.br/)
Mediação: Fabrício Carpinejar (poeta e blogueiro, http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/)
Encerramento: Leitura de textos e discotecagem com DJ Malásia

14 quinta 19h

Interfaces Da Literatura Na Web

A terceira noite do Cartografia contará com criadores e especialistas nas ferramentas e recursos agregados aos conteúdos de literatura na Internet. Todos os debatedores possuem contribuições relevantes e destacam-se na área com trabalhos apurados tanto técnica quanto esteticamente. A discussão girará em torno das interfaces em meio eletrônico — o diálogo com as artes plásticas, música, HQs, animações. O diálogo da literatura com outras artes ganha maiores contornos na Internet?

Debatedores:
André Vallias, poeta e editor do ERRÁTICA/RJ (http://www.erratica.com.br/)
Pipol, webpoeta e editor do PORTAL CRONÓPIOS/SP (http://www.cronopios.com.br)
Mardònio França, poeta e editor do CORSÁRIO/CE (http://www.corsario.art.br/)
Fábio Oliveira Nunes, poeta multimídia e co-editor do site Artéria 8/SP (http://www.arteria8.net).
Mediação: Lucio Agra, professor e performer (http://www.myspace.com/lucioagra)
Encerramento: Apresentação de André Vallias com vídeo-poemas e traduções.


15 sexta 19h

Apreciação E Crítica Dos Conteúdos De Literatura Veiculados Na Internet

A última noite de debates contará com a participação de acadêmicos e editores-poetas de publicações eletrônicas que circulam e ganharam o respeito das universidades, estudantes, professores e escritores. A discussão passará pelo olhar da comunidade científica e acadêmica sobre os conteúdos gerados e veiculados na Internet. Há a possibilidade de uma crítica confiável, estabelecida coletivamente, sobre os conteúdos da própria internet. O volume de acessos e as ações colaborativas são balizadores da qualidade de um site, ou de uma tendência contemporânea para geração democrática do conhecimento?

Debatedores:
Ivan Marques (doutor em literatura brasileira e professor da Universidade de São Paulo; foi diretor do programa Entrelinhas) (www.cronopios.com.br/tvcronopios/conteudo.asp?id=37)
Paulo Franchetti (professor e diretor da editora Unicamp) (http://www.unicamp.br/~franchet/)
Márcio-André, editor da CONFRARIA/RJ (http://www.confrariadovento.com/)
Linaldo Guedes editor do CORREIO DAS ARTES/PB (www.cd-artes.blog.uol.com.br)
Floriano Martins editor da REVISTA AGULHA/CE, http://www.revista.agulha.nom.br/]
Mediadora: Leda Tenório da Motta (Professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC SP, pesquisadora do CNPq, crítica literária e tradutora.)
Encerramento: Márcio-André apresenta uma roldana de palavras-poesia-máquina de desautomatizar munido de vozes, violino e outros objetos sonoros.

16 sábado 15h

Sarau Cartográfico
Participação de autores, blogueiros, internautas, convidados, Djs, performers, poetas, editores. Leituras e bebericcagem.

Todas as mesas terão transmissão Ao Vivo pela TV Cronópios e poderão ser acompanhadas pelo Portal Cronópios (www.cronopios.com.br). Além disso, o portal disponiblizará um CHAT para você enviar suas perguntas para a mesa em tempo real. Fique conectado!
Curadoria do Cartografia Web Literária-2008
Francis Manzoni (SESC Consolação)
Edson Cruz (Cronópios)

Biografia Dos Convidados

Ana Paula Maia é carioca e autora dos romances "O habitante das falhas subterrâneas" (7 letras - 2003) e "A Guerra dos Bastardos" (Língua geral - 2007). Participa de diversas antologias, entre elas, "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (Record - 2004). Em 2006 publicou na internet a novela "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos". Mantêm o blog Killing Travis (www.killing-travis.blogspot.com).
André Vallias é poeta, designer gráfico e produtor de mídia interativa. É paulista onde se formou em Direito pela USP. Começou a criar poemas visuais em 1985, usando a técnica serigráfica que aprendeu com o artista e editor Omar Guedes. De 1987 a 1994, viveu na Alemanha, onde, influenciado pelas idéias do filósofo Vilém Flusser, orientou suas atividades para a mídia digital. Em 1990, foi co-curador (com Friedrich W. Block e Valeri Scherstjanoi) da exposição "Transfutur – poesia visual da União Soviética, Brasil e Países de língua alemã" (Kassel e Berlim). Com Friedrich W. Block, organizou a primeira mostra internacional de poesia feita em computador: "p0es1e-digitale dichtkunst" (Annaberg-Buchholz, 1992). Em 2003, foi agraciado com o Prêmio Sergio Motta de Arte & Tecnologia pelo poema interativo ORATORIO. Em 2004, criou a revista on-line Errática, editada com a colaboração do poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz: http://www.erratica.com.br
Artur Rogério é de Paulista, mas morou até a adolescência em Barreiros, Mata Sul de Pernambuco. Estuda História e Letras em Recife. Criou o Grupo de Teatro Reticências, o Cineclube AZouganda e o Cineclube Cabidela. Tem vários livros não publicados. É idealizador e produtor do Nós Pós, eventos que marcam Recife com a divulgação da literatura contemporânea de Pernambuco. (www.nospos.blogspot.com))
Cardoso (André Czarnobai) nasceu em Porto Alegre, RS. É ficcionista y não-ficcionista, gongorista, jornalista, roteirista, consultor criativo, webshaman extraordinaire, webdesigner autodidata, desenhista, preparador de original, tradutor, intérprete, produtor musical, DJ, MC etc. Foi um dos criadores do histórico CardosOnline. Atualmente, dizem que bloga no http://qualquer.org/salsbury/
Carlos Emílio C. Lima é escritor nascido no CE, poeta, editor, ensaísta, antidesigner. Autor dos romances A Cachoeira das Eras - A coluna de Clara Sarabanda (1979); Além, Jericoacoara - Observador do Litoral (1982); Pedaços da História Mais Longe (1997) e O romance Inédito e esquecido de Jorge Amado na voz da velha e negra senhora (2006 - inteiramente publicado no portal Cronópios); dos livros de contos Ofos (1984), O romance que explodiu (2007) e do estudo ensaístico Virgilio Varzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (2002). No momento, nenhuma de suas obras está distribuída nacionalmente em forma de livro de papel. (www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=14)
Clarah Averbuck é gaúcha de Porto Alegre. Publicou inicialmente na Internet. Foi colunista do histórico CardosOnline, que durou até 2001 e revelou escritores como Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Em São Paulo lançou sua primeira novela, Máquina de Pinball. Em 2001 criou o blog "brazileira!preta" muito acessado e comentado. Publicou, também, Das coisas esquecidas atrás da estante, em 2003, e Vida de gato, em 2004. Blog, http://adioslounge.blogspot.com/
Edson Cruz, baiano de Ilhéus e paulista de formação. Estudou música e psicologia até reconciliar-se com a literatura. Foi editor do site Capitu e agora é editor-fundador do site Cronópios (www.cronopios.com.br). Lançou o livro de poesia, Sortilégio, pelo selo Demônio Negro. Bloga no http://sambaquis.blogspot.com
Fábio Oliveira Nunes é Doutor em Artes na Escola de Comunicações e Artes da USP e Mestre em Multimeios na UNICAMP. Atua como artista multimídia, designer digital e pesquisador nas áreas de web arte, arte mídia e poéticas da visualidade. É co-editor da revista de poesia digital Artéria 8, juntamente com Omar Khouri e organizador da revista digital-objeto NÓISGRANDE. http://www.arteria8.net
Fabrício Carpinejar é poeta, cronista, jornalista e professor, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. É autor dos livros de poesia "As Solas do Sol" (1998, 2ª edição, Bertrand Brasil), "Terceira Sede" (2001, 2ª edição, Escrituras), "Biografia de uma árvore" (2002, 2ª edição, Escrituras), "Caixa de sapatos" (2003, 2ª edição, Companhia das Letras), "Cinco Marias" (2004, 2ª edição, Bertrand Brasil) e "Como no céu/Livro de Visitas" (2005, Bertrand Brasil) e "Meu Filho, Minha Filha" (2007, 4ª edição, Bertrand Brasil), entre outros. É coordenador e professor do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Universidade do Vale do Rio do Sinos, inédito no Brasil. Site: www.carpinejar.com.br Blog: http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br
Floriano Martins nasceu em Fortaleza, CE. Poeta, editor, ensaísta e tradutor. Tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. Foi editor do jornal Resto do Mundo (1988/89) e da revista Xilo (1999). Em janeiro de 2001, a convite de Soares Feitosa, criou o projeto Banda Hispânica, banco de dados permanente sobre poesia de língua espanhola, de circulação virtual, integrado ao Jornal de Poesia. Dentre seus livros de poesia mais recentes, encontram-se Tres estudios para un amor loco (trad. Marta Spagnuolo. Alforja Arte y Literatura A.C. México, 2006), Duas mentiras (Projeto Dulcinéia Catadora. São Paulo, 2008), e Teatro Imposible (trad. Marta Spagnuolo. Fundación Editorial El Perro y la Rana. Venezuela, 2008). Juntamente com Lucila Nogueira, organizou e traduziu o volume Mundo mágico: Colômbia (Poesia colombiana no século XX) (Edições Bagaço. Pernambuco, 2007), também sendo autor de Un nuevo continente (Antología del surrealismo en la poesía de nuestra América) (Monte Ávila Editores. Venezuela, 2008). Atualmente é curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (Governo do Estado do Ceará). Juntamente com Claudio Willer, dirige a revista Agulha (www.revista.agulha.nom.br) - Prêmio Antonio Bento (difusão das artes visuais na mídia) da ABCA/2007.
Heloisa Buarque de Hollanda é professora titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ. Coordena o Programa Avançado de Cultura Contemporânea/Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ; é diretora d´O Instituto Projetos e Pesquisa e da Aeroplano Editora Consultoria Ltda, bem como Curadora do Portal Literal (www.portalliteral.com.br). Tem inúmeros artigos e livros nas áreas arte, literatura e políticas culturais.
Ivan Marques é doutor em literatura brasileira e professor da Universidade de São Paulo. Foi diretor do programa literário "Entrelinhas" e editor-chefe do programa "Metrópolis", ambos da TV Cultura. Na mesma emissora, dirigiu os documentários "Versos diversos: a poesia de hoje", "Orides: a um passo do pássaro" e "Assaré: o sertão da poesia". Organizou o livro "O espelho e outros contos machadianos" e as antologias "Histórias do Romantismo", "Histórias do Realismo" e "Histórias do Pré-Modernismo", todos pela editora Scipione. Tem artigos publicados em livros, jornais e revistas. (www.cronopios.com.br/tvcronopios/conteudo.asp?id=37)
Leda Tenório da Motta é Professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC SP, pesquisadora do CNPq, crítica literária e tradutora. Tem sete livros publicados, entre eles, Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século (Imago, 2003), Céu Acima - Para um Tombeau de Haroldo de Campos (Perspectiva 2005) e Proust - A Violência Sutil do Riso (Perspectiva 2007). (www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3125)
Lima Trindade nasceu em Brasília, começou como fanzineiro e rapidamente migrou para o mundo eletrônico da internet. Há dez anos edita (e colabora) a revista Verbo21 (www.verbo21.com.br), publicação que se pauta pela versatilidade de seus colaboradores, multiplicidade de olhares, inquietações contemporâneas. Depois de 2005 publicou 3 livros, uma novela-pop-rock chamada Supermercado da Solidão (LGE, 2005), as antologias de contos Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005) e Corações Blues e Serpentinas (Arte Paubrasil, 2007).É mestre em literatura pela Universidade Federal da Bahia.
Linaldo Guedes nasceu em Cajazeiras no Alto Sertão da Paraíba. É poeta, tendo publicado seu primeiro livro "Os zumbis também escutam blues e outros poemas" (Textoarte Editora), em 1998, e o segundo, "Intervalo Lírico" (Dinâmica Editora), em 2006. Lançou, ainda, "Singular e Plural na poesia de Augusto dos Anjos" (ensaio, editora A União) e co-organizou os livros "Correio das Artes, 50 anos", volumes de poesia e contos (Editoras A União e Universitária, 1999) e "Diálogos" (Editora Aboio, 2004). É também jornalista, tendo atuado pelos principais jornais de João Pessoa, como O Momento, Correio da Paraíba, Norte e A União, além de ter trabalhado, ainda, na TV Tambaú e na Rádio Tabajara FM. Atualmente edita o caderno de Cultura e o suplemento literário Correio das Artes, ambos do jornal A União. É estudante do Curso de Letras da Universidade do Vale do Acarai (UVA). Tem um blogue na internet desde janeiro de 2004, no seguinte endereço: http://linaldoguedes.blog.uol.com.br
Lucio Agra, Doutor em comunicação pela PUC, professor do Mestrado em Design do Centro Universitário Senac, onde também dá aulas nas pós-graduações lato senso de Design Gráfico e Criação de Imagem e Som em Meios Eletrônicos; professor da Graduação em Comunicação das Artes do Corpo da PUC-SP, na área de Performance. (http://www.myspace.com/lucioagra)
Márcio-André é poeta, tradutor, editor, performer e ensaísta. Autor dos livros Movimento Perpétuo (2002), Cazas (2006), Intradoxos (2007) e Ensaios radioativos (2008). É editor da revista de arte e literatura Confraria, produzida pela Confraria do Vento, editora que coordena no Rio de Janeiro. Faz peças musicais para teatro e cinema e realiza performances de improvisação oral, poesia sonora e música eletroacústica, fundindo o som do violino ao de outros objetos produtores de som. Em junho de 2007 realizou a Conferência Poético-Radioativa de Pripyat, performance que consistiu em leitura solitária de poemas na cidade fantasma de Chernobyl, na Ucrânia. Também fez leituras em Coimbra, Paris, Buenos Aires e Londres e tem seu trabalho traduzido para diversas línguas. (www.marcioandre.com)
Mardônio França é poeta multimeios. Recentemente produziu diversos curtas-metragens e cinePoemas. Co-editor da antologia de poesia, Massanova. É editor da revista eletrônica corsário ( www.corsario.art.br). Tem 10 livros de poemas na revista corsário. Gosta de computadores, fotografias e jangadas.
Paulo Franchetti nasceu em Matão (SP). Professor Titular no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), fez mestrado na Unicamp, doutorado na USP e livre-docência na Unicamp. Publicou, entre outros, Alguns aspectos da teoria da poesia concreta (Campinas, Editora da Unicamp, 1989), Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), Estudos de literatura brasileira e portuguesa (Cotia, Ateliê, 2007) e O essencial sobre Camilo Pessanha (Lisboa, Imprensa Nacional, 2008). Publicou ainda, pela Ateliê, a novela O sangue dos dias transparentes (2003) e a coletânea de haicais Oeste (2008). Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp. (http://www.unicamp.br/~franchet/)
Pipol estudou psicologia e trabalhou como redator publicitário. Já dirigiu programas de TV e comerciais de propaganda. É co-fundador dos sites Cronópios (www.cronopios.com.br) e Cronopinhos (www.cronopios.com.br/cronopinhos), editor de arte da revista eletrônica Mnemozine (www.cronopios.com.br/mnemozine) e autor do pocket book Brinquedos de Palavras: www.cronopios.com.br/pocketbooks/brinquedos/
Raimundo Carrero nasceu em Salgueiro, sertão de Pernambuco. Começou a escrever na infância mas somente publicou a sua primeira novela - "A História de Bernarda Soledade" - em 1975. Até o momento publicou quinze livros: romances, novelas, contos e ensaios. Ganhou os prêmios Jabuti, com o livro de contos "As sombrias ruínas da alma", o APCA e o Machado de Assis, com "Somos pedras que se consomem", também finalista do Prêmio Jabuti, e o prêmio Revelação do Ano - Oswald de Andrade -, em Porto Alegre, com o romance "Viagem no ventre da baleia". No terceiro governo Miguel Arraes foi presidente da Fundação de Cultura e secretário-adjunto de Cultura. Atualmente edita o jornal Pernambuco, suplemento cultural do Diário Oficial do Estado. Site: www.raimundocarrero.com.br/
Vicente Franz Cecim é escritor nascido na Amazônia, em Belém do Pará. Em 1979, com A asa e a serpente, iniciou uma longa obra que até hoje continua criando: Viagem a Andara, o livro invisível, em que transfigura a sua região natural, a Amazônia, em Andara: uma região-metáfora da vida em que o sobrenatural emerge em epifania. Em 2001, quando a invenção de Andara completou 22 anos, publicou Ó Serdespanto (Íman Edições, Lisboa) com 2 novos livros de Andara, apontado pela crítica portuguesa como um dos melhores livros do ano. Em 2004 relançou, em versões finais, transcriadas, os 7 primeiros livros de Andara reunidos nos volumes A asa e a serpente e Terra da sombra e do não (Editora Cejup, Belém). Em novembro de 2005, publicou seu primeiro livro em Iconescritura, também em Portugal: K O escuro da semente (Ver o Verso, Maia). Em 2006, saiu a edição nacional de Ó Serdespanto (Bertrand Brasil, Rio). (http://www.culturapara.com.br/vicentececim/vicentececim.htm)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

SÉRGIO MENDES & BRASIL 66 - " MAS QUE NADA "



REFLEXÕES SOBRE JORGE MAUTNER

por Mario Schenberg


A crise espiritual aguda da juventude européia e norte-americana, que eclodiu massiçamente após a segunda guerra mundial, já se faz sentir também no Brasil. Há uma insatisfação profunda com as grandes estruturas ideológicas e religiosas do século XIX e da primeira metade deste século. O existencialismo sartreano teve o mérito de tentar formular alguns problemas candentes, mas não revelou uma real eficácia orientadora. Por outro lado a divulgação do Zen introduziu atitudes vitais fecundas, vindo ao encontro de certas aspirações ocidentais manifestadas no heideggerismo post-nazista e noutros pensadores europeus, como Wittgenstein. Com os beatniks, o Zen atingiu setores mais amplos da juventude, sobretudo entre os intelectuais e artistas. Mautner nos precipita bem no fundo dessa crise.
Indiscutivelmente uma das causas mais importantes da crise foi a estagnação da ideologia marxista depois de Lenin, que só agora começa a desaparecer, e com extrema lentidão. O marxismo, voltado no século XIX e na primeira metade deste século para os problemas econômicos e políticos prementes, não desenvolveu os pontos de vista fecundos dos escritos filosóficos da juventude de Marx. Alguns deles só vieram à luz nos últimos anos. Mesmo os cadernos filosóficos de Lenin continuaram desconhecidos no Ocidente até há pouco tempo. As implicações mais profundas da reavaliação de Hegel nos cadernos de Lenine ainda não foram bem compreendidas. Só agora os teóricos comunistas se dão conta de que, com Stalin, houve uma regressão do materialismo dialético de Marx para o materialismo mecanicista do século XVIII, em vez dum desenvolvimento do marxismo para a problemática filosófica, cientifica e humanista do século XX.
Inúmeros fatos indicam que nos aproximamos de um momento crucial da evolução da Humanidade, daquele fim da pré-história previsto por Marx, em que a existência do homem deixará de ser determinada basicamente pela necessidade de obter os meios materiais de subsistência. Desaparecerão as classes sociais e a diferenciação do trabalho manual e do trabalho intelectual. O progresso tecnológico permitirá a satisfação plena das necessidades de todos com um mínimo de trabalho. Modificar-se-á fundamentalmente a relação entre o homem e o trabalho e, assim, a própria essência do homem, em consequência da transformação da relação do homem com a natureza através do trabalho e dos homens entre si na vida social. E a guerra atômica?
O progresso científico vai chegando ao ponto em que o homem poderá transformar a sua própria natureza biológica e se aperfeiçoar, não apenas cultural e espiritualmente, mas até zoologicamente. Aproxima-se de sua efetivação prática o ideal do super-homem. A menos que a insanidade atual leve a nossa espécie ao extermínio numa guerra termo-nuclear.
Os homens de minha geração distinguem-se dos da geração de Mautner por terem crescido antes dos massacres de Hiroshima e Nagasaki. No tempo de minha juventude desconhecíamos a vivência das armas nucleares e da possibilidade de extermínio da Humanidade. Dessa época me sobrou um otimismo arraigado, que não se deixa dominar pela consciência racional da tremenda possibilidade. Compreendo que os jovens de hoje tenham uma vivência do Nada mais aguda e omni-presente. Falta-lhes o otimismo essencial. Talvez precisem afundar num irracionalismo sexual, como o da trilogia de Mautner, para esquecer a possibilidade aniquiladora.
Provavelmente a juventude brasileira, em geral, não possui uma vivência suficientemente poderosa do perigo atômico para marcá-la tão totalmente como as da Europa e dos Estados Unidos. Acredita que não seríamos muito atingidos numa guerra atômica. Assim surge a idéia de que o futuro será da América Latina, da África, da Ásia e da Oceânia. Na trilogia do Kaos encontramos de fato essa perspectiva esboçada.
Mautner vive intensamente a aproximação dum momento histórico crucial de transformação e síntese criadora, com as tremendas e arrebatadoras tensões espiri-tuais, sociais e políticas que a caracterizam. Apresenta-se como um dos profetas da Nova Era e até como messias (talvez com uma ironia peculiar). O seu Kaos seria a ideologia da Nova Era: integração contraditória e trágica de paganismo dionisíaco, comunismo transfigurado e cristianismo reformulado. Considera-se um continuador e superador de Marx, Nietzsche e Berdiaev. Mautner profetiza que o tédio e o sexo serão as notas dominantes duma existência fundamentalmente poética do homem libertado da tirania das necessidades materiais pela Técnica.
A problemática de Mautner gira em torno da contradição entre o irracional e o racional. Identifica muitas vezes o comunismo marxista com o racionalismo radical. Vê no sexo, na poesia e num misticismo dionísíaco da natureza (com um certo colorido cristão) a essência do irracional. Repele simultaneamente o comunismo racional e o cristianismo ascético e sentimental, anunciando um comunismo existencial místico e um cristianismo sexual dionisíaco. Talvez o seu Kaos possa ser simbolizado por uma síntese Dionísios-Cristo-Marx. Vê uma nova espécie de Eterno Retorno cósmico, num movimento espiral e ascendente como o do progresso dialético hegeliano-marxista. O Kaos conteria também um Caos, mas o transcenderia pelo progresso dialético, associado à contradição entre o irracional e o racional.
Apesar dos elementos cristãos que engloba, a religião do Kaos parece não incluir elementos de transcendência do tipo judaico-cristão. As formulações de Mautner são bastante fluidas e tornam difícil uma caracterização precisa. Provavelmente sofrerão modificações substanciais no futuro. A linha imanentista de Mautner corresponde a uma tendência muito generalizada no sentimento contemporâneo do Cosmos, que transparece até nas tentativas atuais de reformulação da dogmática cristã.
Mautner é eminentemente um poeta da água, no sentido da análise existencial de Bachelard. Na sua visão poética o Cosmos se revela como basicamente líquido. Há uma omnipresença obsessionante da chuva e do mar em sua obra. O próprio sentido de sexo de Mautner deriva do seu aquatismo, assim como o seu tipo de irracionalismo não voluntarista. A essência aquática da poesia mautneriana revela porque difere tão profundamente de Nietzsche, poeta do ar das alturas, embora tenha sofrido vivamente a influência do poeta-filósofo germânico.
Há uma grande afinidade entre Mautner e Jorge Amado. Ela se manifesta na poética aquática, na ênfase lírica dada ao sexo, na sensibilidade visual paisagística, no anarquismo e nas tendências socialistas místicas dos dois escritores. Diferem certamente quanto ao tipo psicológico, no sentido de Jung, e à formação. Em Mautner predominam as tendências à intuição e ao pensamento, enquanto em Jorge Amado sobressaem a sensação e o sentimento. Jorge Amado é filho duma sociedade semi-feudal; Mautner provém de um ambiente de cultura burguesa, com fortes influências culturais centro-européias.
A antiga cultura chinesa elaborou uma concepção dialética do Cosmos como luta e mútua metamorfose de dois princípios opostos, o Yang e o Yin, integrados na unidade do Tao. Essa imagem cósmica conserva certamente um grande valor poético e existencial. O Yin seria o princípio feminino, aquático, tenebroso; o Yang constituiria o masculino, seco e luminoso, construtor e destruidor. A oposição de Yang e do Yin, mais profunda que a do racional e do irracional característica do pensamento ocidental moderno, é conveniente para a análise da cosmovisão de Mautner.
Mautner vivencia autenticamente o Yin, mas não tanto o Yang. Sua síntese do Kaos é por isso menos profunda que a do Tao oriental. O comunismo marxista não se caracteriza por um predomínio do racional, como Mautner admite. O racional é apenas um aspecto do Yang construtor. Predomina no hegelianismo, mas não no marxismo. De um certo modo o marxismo deu maior conteúdo ao hegelianismo por um desenvolvimento mais completo do lado Yang e pela apreensão do aspecto material Yin da natureza. Provavelmente as maiores deficiências do marxismo atual se relacionam com uma captação ainda muito inadequada do elemento Yin obscuro e poético no Homem. Daí a inexistência de uma grande arte de inspiração marxista.
Deve ser superada, a insuficiência em Yin, para que o marxismo possa efetuar a síntese Yang-Yin em sua plenitude, nas condições históricas do momento atual. O dogmatismo stalinista amputou o soberbo desenvolvimento Yang de Marx no aspecto Yang destruidor, exagerando o aspecto Yang construtor.
A obra de Mautner é uma das mais estranhas e interessantes da atual literatura brasileira. Sua audácia de conteúdo e forma muito contribuirá para nos abrir novos horizontes de poesia e pensamento, levando-nos a uma participação mais ativa no debate mundial das grandes questões de nossa época.


ADERÊÇO


acho
cedo e pouco

que tal
tudo e todo

assim
seremos felizes

para sempre?
ai o vento nos levará.


Cgurgel

segunda-feira, 11 de agosto de 2008


ERVA DANINHA


erva
entre o pandemônio e o pêndulo
entre o besouro que estrala
ao primeiro sinal de um zumbido

daninha
entre parábolas e estalactites
como um profeta do templo vazio
um clarão que o teu peito profana


erva
uma cumeeira
de cáos e cacos de gente
de hóstias e réstias trancadas

daninha
nunca
sobrevoarei passos
o que eu quero
eu saberei onde encontrar.

Cgurgel


JUNIO BARRETO, POETA DE TEMPO PRÓPRIO
por Trama Virtual

Ainda pivete, graças ao rádio "Transglobo" de seu pai, Junio Barreto começou a notar que a distância entre Caruaru e o resto do mundo era menor do que sugeriam os livros de geografia. Sabedor da ausência de fronteiras da música, guardou os ritmos do agreste no juízo e se mandou, ainda adolescente, pro Recife. Aboios, violeiros, baião, banda de pífanos, frevo, coco, xaxado _levou tudo junto em seu matulão.
Ouviu muito rock inglês, fez seu próprio rock _liderando a banda Uzzo_, compartilhou da gestação do mangue beat. Os comichões só aumentaram, e Barreto pegou a estrada de novo.
Impregnado de agreste, sertão e litoral, aportou na concrete jungle paulistana suavemente, sem alarde.
Aos poucos São Paulo foi se abestalhando com o namoro de candomblé e drum’n bass celebrado pelo seu novo inquilino. Voz de tenor, alma negra, o sossego em pessoa, Junio Barreto 40 anos, amigo e parceiro de Otto, lança agora seu primeiro disco solo.
Com 10 faixas, o independente "Junio Barreto", viabilizado pela lei de incentivo à cultura do governo de PE, tem o terreiro em sua essência, seja o terreiro de maracatu, de candomblé ou mesmo o pedaço de barro batido que abriga almas e passos em quintais pelo Brasil afora. São sambas conduzidos com melancolia e delicadeza, aboios que se transfiguram a partir de arranjos modernos e sofisticados.
Nove das dez canções são da lavra do autor. A exceção só confirma a regra de que não se trata de um disco comum. Em "A Mesma Rosa Amarela", letra do poeta Carlos Pena Filho musicada por Capiba e anteriormente gravada por Maysa, o vozeirão de Junio é acompanhado por um esmerado piano acústico de Lincoln Antônio e por moogs, numa combinação de arrepiar.
As demais composições, recheadas de vocábulos recriados, mostram um autor influenciado por Guimarães Rosa e Manoel de Barros e atento ao falares do agreste e do sertão. Revelam um compositor avançado em anos, não poeta extemporâneo: poeta de tempo próprio. Três exemplos:
"Vai tardinha, encosta
Coi de voga anda noite te chamou
Roda, adoça fora
Jorra o doce que o dono da cana mandou"
(Do Caipora ao Mar)
"Ela mandou caiá, lavar todo o terreiro
Quis dengo de mão e samba de maracatu
Deu rosa pra menino, buchada de carneiro, ê
Só porque chegou água na torneira"
(Oiê)
"Se vê que vai cair deita de vez, oh nego
Clareia, clareia
Amansa calundu, junta, sacode, sai, é
Cai logo, nego
Sossega teu coração"
(Se Vê Que Vai Cair Deita de Vez)

Não é apenas coincidência etimológica, pois, que o CD tenha sido gravado no estúdio paulistano Terreiro do Passo, capitaneado pelo músico e pesquisador Alfredo Bello, que produz o disco junto com Junio, toca baixo em várias faixas, além de moogs e efeitos eletrônicos tantos.
Além de Bello, a banda de Junio tem a percussionista Simone Soul, o guitarrista Gustavo Ruiz, o flautista Marcelo Monteiro e tecladista Dudu Tsuda.
Instrumentos de quatro faixas foram gravados em Londres e Gateshead (Inglaterra), pelo estúdio móvel do Terreiro do Paso

domingo, 10 de agosto de 2008



CHARCO

porcos
são todos tão podres
e quase nenhum presta
estão por ali, no pasto, ou onde tú rondes
parede e meia com a praga e da ferrugem de uma testa

porcos
são como espécies de uma porteira ferida
uma imensa multidão que escorre
mentores dos pavores, uma paixão perdida
se enlameie mais, porque ai voce morre

porcos
é tudo como fã de uma incondicional lama
que esbofeteia estrumes, grotões e insanos
igual aquela voz, que voce não escuta, mas que te chama
agora, quando voce menos espera, e por todos os teus anos

porcos
é como uma completa e rude selvageria
arrodeia teu ar, infecta o olhar, aqui, ali e no púlpito
lançam-se por entre silêncios, mestres e agonias
irmãos desse século gosmento e de um breu, mal súbito

porcos
não valem merda
é tudo que te faz perder o juízo
é tudo que desse mundo se herda
ladroagem, a peste, trapézio, esconderijo

e assim a porcaria se entrete
vegeta entre hospícios, igrejas e favelas
se enrosca em minúsculas partes, em escarros e em giletes
como bosta, no capricho, um horripilante infante da sua chancela.

Cgurgel


PÓLEN

senta-te aqui
por entre ramos e dores
por entre manhãs e pavores
por entre o céu e o limbo

descansa aqui
por sobre os bichos que te olham
a represa, o botequim, a aurora
o ruído, tão folhetim do seu varal

dormes aqui
nessa cisterna que canta
por dentro da flor de quem planta
por sobre o cimento vazio

acordas aqui
distante dos aperreios dos pássaros
como água que flutua o teu anzol
um pranto da fagulha do teu leito

e vivas aqui
mesmo que para isso
decantes o passante do teu olhar
como fugas do encanto que te sonhou.

Cgurgel

sábado, 9 de agosto de 2008



TOCAIA

essa cidade sumiu
plantei aqui acácias e capins
adubei sua horta
como um pároco da sua putaria

essa cidade não presta
ela caça arbustos e a imersa coleira dos seus filhos
tão vagabundeados por suas vilas e vilões
surrupiados por seus bueiros e ladrões

essa cidade já se presta a uma farsa
completamente tomada por drogas e dragões
fulanas e canhões
tão hemisféricos letreiros e culhões

essa cidade é o fim da picada
e entre o que sai e entre o que fica
resta uma cilada
tramóia
tocaia
roubada

essa cidade já não me serve
ela serve aos outros que nunca se prestam
ao jardim que cresce morto
a todos os seus entretenimentos rôtos
tão abastecida de ouros e doutos

essa cidade é uma infâmia
onde entre os seus e os seus céus
perpassa réus, eterna desgraça
de uma vila
que de tão vilã
restou esse amanhã.

Cgurgel


TORQUATO NETO, UMA FIGURA EM PEDAÇOS
Por José Castello


A vida breve, mas fecunda, de Torquato Neto (1944-1972) é uma síntese da grandeza, mas também dos abismos que definem a cultura alternativa e rebelde dos anos 60 e 70. Mais importante pensador do movimento da Tropicália, letrista, poeta, cineasta, ator, Torquato ganha, mais de três décadas depois de seu enigmático suicídio, uma bela biografia, assinada por Toninho Vaz (“Pra mim chega/ A biografia de Torquato Neto”, Editora Casa Amarela).
Como discípulo fiel do mito alternativo, Torquato tinha como ideal destruir o mundo para, nesse mesmo gesto, fazer o parto de um novo. Uns poucos se lembram do empenho, da identificação secreta, com que ele representou o papel de Adão no curta-metragem em super 8 “Adão e Eva, do Paraíso ao Consumo”, produção marginal de oito minutos cujos negativos se extraviaram. É emblemática, e mais conhecida, a altivez com que ele aparece, ao lado de Gal Costa, na capa do LP “Tropicália”.
Em sua festa de 28 anos, comemorada em um bar da Usina, no Rio de Janeiro, o amigo João Rodolfo do Prado, na época editor da “Última Hora” (jornal em que, entre 1971 e 72, Torquato Neto assinou a famosa coluna Geléia Geral) também o viu com o carisma de um iluminado. “Torquato estava messiânico, dando conselhos e distribuindo tarefas”, relata ao biógrafo Vaz. “Ele estava fazendo uso de uma lógica própria, como se estivesse mergulhado num mundo inatingível.”
Mais objetivo, Toninho Vaz prefere assinalar que “é provável que Torquato estivesse fazendo uso de cocaína”. Outra testemunha, o jornalista Luís Carlos Maciel, prefere pensar em uma “viagem” de LSD. Como diz o próprio biógrafo, já não importa saber “qual a substância química que o poeta usou na sua despedida”. Na madrugada seguinte ao aniversário, de volta de uma ronda pelas boates da zona sul, Torquato se trancou no banheiro, ligou o gás e esperou a morte. Foi encontrado só na manhã seguinte, pela empregada Maria da Graça.
Antes disso, em um caderno espiral, ele rabiscou um bilhete enigmático: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago que ele pode acordar.” Thiago era seu filho de 3 anos, que dormia num quarto ao lado. Às 9 horas da manhã, Torquato Pereira de Araújo, neto (assim mesmo, com uma vírgula no nome) foi considerado oficialmente morto.

Poeta da ruptura
Entre os últimos textos rabiscados no caderno, havia uma frase isolada, atribuída a Caetano Veloso: “O amor é imperdoável”. Do mais belo, Torquato conseguia tirar o mais horrendo. Por isso, o mais importante na equilibrada biografia de Toninho Vaz é que ele não se deixa convencer nem pelo santo, nem pelo monstro. Encontra os dois dentro do mesmo Torquato e, se depara então com uma figura em fragmentos, a responsabilidade não é sua, mas de seu biografado.
Torquato Neto foi, como Vinicius de Moraes, um poeta para quem a poesia vazava na vida. Não é por outro motivo que é autor de um livro único, “Os Últimos Dias de Paupéria”, só editado após sua morte. Deixou mais de 30 letras de música, assinadas com parceiros célebres como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jards Macalé. E um diário do sanatório do Engenho de Dentro, onde passou uma das várias internações a que se submeteu, para tratar não só do excesso de álcool e drogas, mas também de uma depressão crônica.
Toninho Vaz não tenta juntar os cacos desse poeta despedaçado, tampouco impor uma ordem de valor aos fragmentos que recolhe. “Poeta da ruptura”, como Torquato preferia se ver, sob forte influência não só de seus companheiros da Tropicália, como Rogério Duprat, José Carlos Capinam, Nara Leão e Tom Zé, mas também dos cineastas do Cinema Marginal e ainda dos poetas concretos de São Paulo. E, não menos, de artistas inquietos e radicais como o diretor de teatro José Celso Martinez Correa e o pintor Hélio Oiticica.
Mais do que na obra, diz o biógrafo, “a importância de Torquato Neto vai aparecer naquilo que ele fez e disse”. Em outras palavras: naquilo que viveu. Transportando a poesia para a vida, como fez Vinicius, Torquato se transformou em um mito que, como todo mito, fascina, mas também afasta. “Eu sei o que significa um mito, mas se alguém me perguntar vou entrar em pânico e não vou conseguir responder”, resume Vaz, citando Santo Agostinho.
Como os artistas da vanguarda, Torquato tinha dois grandes inimigos: as idéias preconcebidas e o “medo paralisador”. “Quero ir muito além do que já foi feito”, ele repetia. Um poeta cujo projeto era colocar-se a perigo, sempre disposto a enfrentar novas dificuldades e novos obstáculos. A contradição que carregava vinha de berço. Seu pai, Heli Nunes, era espírita kardecista e membro da maçonaria, enquanto a mãe, Salomé, uma católica fervorosa, uma típica beata.
O filho por eles gerado teve um nascimento difícil. Salomé tinha a bacia estreita e, no parto, como relata Vaz, “o bebê foi retirado a fórceps de dentro da mãe, durante uma batalha sangrenta que durou mais de uma hora”. Um movimento brusco do médico provocou um ferimento na cabeça do bebê. D. Salomé passou mais de um ano em tratamento para curar-se das seqüelas daquele nascimento. Torquato nunca deixou de se ver como filho de um trauma.

Vagabundagem inspirada
Foi um menino tímido que, desde cedo, ainda nos bancos escolares, já lia os poetas Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Gonçalves Dias. Aos 14 anos, descobriu Machado de Assis. Em 1959, seguindo os passos de outro poeta piauiense, Mário Faustino, decidiu cursar o científico em Salvador. Não podia imaginar a opulência que o esperava. A Salvador do início dos anos 60 vivia grande agitação cultural. Lina Bo Bardi, Joaquim Koellreutter e Glauber Rocha eram só as figuras mais nobres num cenário em que surgia, como diz Vaz, “uma arte agressiva e de vanguarda”. A capital baiana se transformara, diz o biógrafo citando Roberto Rosselini, em uma “Roma negra”.
Mas Torquato ainda não ficou satisfeito. Aos 17 anos, ele se transferiu para o Rio. Foi morar com um tio, Jonathan, no suspeitíssimo edifício Rajah, na praia de Botafogo, e estudar numa escola que, como se dizia, era uma “boate”, isto é, tinha péssima fama, o Colégio Ruy Barbosa. Fez o vestibular para jornalismo, mas não terminou o curso, e começou a trabalhar nas redações da cidade. Na mesa de um bar, o botequim Mau Cheiro, no Arpoador, conheceu sua futura mulher, Ana. Ao lado de amigos como Caetano Veloso e Jards Macalé, começou a viver o que seu biógrafo define como “uma vagabundagem inspirada”.
A festa acabou, ou pelo menos se politizou, com o golpe militar de 1964. A partir dali, a felicidade passou a estar, sempre, ligada à angústia. “Sou um homem triste”, ele escreveu em carta a um amigo, “sinto que sou um homem destinado à latrina”. A fúria vanguardista e a realidade vazia se alternavam à sua frente, ou eram o avesso e o direito de uma mesma experiência. Torquato tinha o porte de um anjo. Aos 21 anos, muito magro, estava com 1,74 metro, mas pesava só 60 quilos. “Eu lembro dele como um sujeito inquieto, muito agitado e algumas vezes dispersivo”, diz ao biógrafo o compositor Edu Lobo.
Era um radical, cada vez mais aferrado a seus preceitos estéticos, atitude expressa em frases assim: “Não se pode matar o príncipe e deixar vivo o princípio”. Como o regime militar também se radicalizava, porém, as vanguardas terminaram partidas ao meio. De um lado, ficaram os engajados, como o poeta José Carlos Capinam; de outros, os alternativos, como Torquato. “Era o momento da ruptura, o ponto extremo da forquilha, quando cada grupo deveria procurar o seu canto no ringue”, diz Vaz, resumindo aqueles tempos.
Nesse turbilhão, surge a Tropicália, movimento que não desejava aderir “nem à MPB pura, nem ao ié-ié-ié”. O ideal dos tropicalistas não podia ser mais ambicioso: buscavam uma mudança radical nos valores. “Eu sou como eu sou/ pronome/ pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível”. O impossível era tudo o que pediam.
Contudo, o marco do movimento tropicalista, alerta Toninho Vaz, não está na música, mas em uma exposição do artista Hélio Oiticica, realizada em abril de 1967, no MAM. Ela se baseava nos princípios de um manifesto, assinado pelo pintor, chamado “Nova Objetividade”. O crítico Mario Pedrosa resumiu assim a caótica doutrina: “um exercício experimental da liberdade”. Torquato, em particular, tinha obsessão em se livrar do já feito, para chegar ao osso das coisas e, como dizia, à verdade. “Assim como Oswald de Andrade, ele tentava enunciar quatro verdades em três linhas”, diz Vaz. “Estava nascendo o mito do escriba maldito e destemido, empunhando a pena justiceira e, mais uma vez, destoando o coro dos contentes”, diz o biógrafo. Como num filme de Luis Buñuel, cineasta na moda, surgia um anjo exterminador.

Um péssimo presságio
Torquato se batia, ferozmente, contra a ditadura, contra a indústria fonográfica, contra o conformismo, contra a arte engajada e “inocente” de um Geraldo Vandré. Mas não parava de beber e de se drogar. “Analisando hoje, posso ver como ele se autodestruía”, recorda o empresário Guilherme Araújo. Com a quilométrica letra de “Geléia geral”, que seria transformada em hino do Tropicalismo, Torquato consegue fixar os princípios de suas idéias rebeldes. Aquela letra, no dizer de outro poeta, Paulo Leminski, já apontava para o “poeta das elipses desconcertantes, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade”.
Em 1968, o ano das grandes convulsões sociais, Torquato, com sua altivez de aristocrata - como observou Zé Celso - apresenta uma perturbadora, e de certo modo humilde, definição do Tropicalismo: “a ausência de consciência da tragédia em plena tragédia”. Em um artigo no suplemento “O Sol”, sem disfarçar a postura de guru, ele escala a nobreza da Tropicália. Zé Celso seria o papa, Chacrinha o gênio, Gilda de Abreu a musa, e Nelson Rodrigues ninguém menos que deus.
Se havia obstinação e exagero, havia também desesperança e melancolia. “No fundo, é uma brincadeira total”, o poeta escreve em outro artigo, expondo seu pessimismo crônico. “A moda não deve pegar, os ídolos continuarão sendo os mesmos.” Cabelos compridos, roupas ao estilo hippie e uma invejável bagagem artística, Torquato parecia então, nas palavras de Gilberto Gil, “um daqueles meninos de Buñuel, devotos de Lourdes, ou de Fátima”. A busca radical o aproximava da santidade.
Chegaria o momento em que, depois de um desentendimento doloroso com Caetano Veloso, Torquato começou a se afastar da Tropicália. Veio a Passeata dos Cem Mil, a peça “Roda Viva”, a agitação nas ruas, e a paisagem se radicalizou ainda mais. Torquato ainda tentava resistir, mesmo em atos isolados, como quando dirigiu o especial “Vida, paixão e banana do Tropicalismo” para a TV Globo. No elenco, o cantor Vicente Celestino se aborreceu quando, numa seqüência em que se evocava a Santa Ceia, com Gilberto Gil como Jesus Cristo, o pão sagrado foi substituído por uma banana. Ofendido, Celestino abandonou o teatro das gravações, entrou num táxi e desapareceu na cidade. “Horas depois, ele morria de infarto num quarto do hotel Normandie, onde estava morando”, relata Vaz. Era um péssimo presságio.
Quando o AI-5 foi decretado, Torquato estava a salvo em um cargueiro dos correios britânicos, atravessando o Atlântico, a caminho da Europa. “Vou embora porque alguma coisa vai explodir por aqui”, ele disse aos amigos que o levaram ao porto. Estava certo. Logo depois, Caetano e Gil seriam presos, teriam cabelos e barba raspados, se tornando mártires da resistência cultural. Torquato, por sua vez, viveu uma difícil temporada em Londres, onde a mulher, Ana, foi encontrá-lo.
De Londres, mudou-se para Paris. Passaria, ao todo, um ano na Europa. Quando retornou enfim ao Brasil, já no início de 1970, o país era outro. E ele também. “Seu aspecto físico também era outro”, recorda Toninho Vaz. “Ele estava, digamos, mais louco, cabeludo e atrevido - para não dizer agressivo e afetado.” Tempos depois, na luta contra a depressão cada vez mais intensa, o poeta se internou no sanatório do Engenho de Dentro, o mesmo que projetou a imagem da dra. Nise da Silveira. Na ala masculina, ao lado de 35 pacientes, foi tratado com doses fortes do calmante Mutabon D. Via-se, provavelmente, como um Antonin Artaud dos trópicos.
Em seus perturbadores diários de manicômio, ele expõe idéias assim: “Deus está solto e foi Caetano quem gritou primeiro. Posso reconhecê-lo em seus disfarces.” Discretamente, ou em prontuários particulares, os médicos falavam em “esquizofrenia”. Quando enfim terminou a internação, Torquato resolveu viajar para uma temporada de repouso em Teresina, que duraria três meses. Já não seria o bastante. Nada mais bastava.
De volta ao Rio, o cineasta Ivan Cardoso o escalou para o elenco de “Nosferato”, um longa-metragem em Super 8. Torquato seria o próprio Nosferato. “Ele tinha muita identificação com os vampiros, não gostava de claridade e era elegante como um conde da nobreza”, justificou, mais tarde, o cineasta. Sempre desassossegado, Torquato Neto ainda tramaria o lendário almanaque “Navilouca”, que teve um único número. Foi o último clarão, logo depois o desejo de morte venceria.


E QUANDO A NOITE CHEGAR


e quando a noite chegar
velas, gritos e suicídios
eclodirão como um filme mal visto
uma história mal contada

e o fim que se aproxima
sufoca as veias de quem vai para a cama
dilata o tremor de quem ficou só
arrebata o bem de quem nasceu com vestes falsas

e quando a noite chegar
estarei esperando voce
na esquina onde ninguém fica
como o meu sangue
pronto para te possuir.

Cgurgel

sexta-feira, 8 de agosto de 2008




ÂMAGO


a carne que me destes
é do corpo de Maria
uma enorme sesmaria
onde me atrapalho em embroglios
com tamanha selvageria.

Cgurgel


EXPERTO

uma fórmula tão bela de viver
só não sei se meus passos suportarão
o que da terra, o barro, nos levarão.

Cgurgel

TÁBUA DAS MARÉS


assim somos
como um vôo rasante
um templo onde se consagra tudo do que nossos tesouros nos falam
uma porção de licores
talvez uma noite, um dia

assim fomos
ao berço de um rio que sangra
palavras
verões
uma mesa de um bar
como encantadores alunos da lua que sorria para nós
tão mestra de si mesma
como um coração que pulsa
uma areia movediça
ou uma cadeira de balanço?

assim cremos
na força de um olhar que se espalhou por entre instantes
promessas
recados
avisos e esquecimentos

e o mar
senhor do seu caís
andou
procurando por sobre suas ondas
nossos passos para onde?

Cgurgel

TEMPLO NOIR

já não é de hoje
eu passo pela aquela esquina
feses escarradas pelo seu chão
um tanto de nostalgia no seu piso
contemporâneas velas acesas

mesmo que eu diga também
que vou tomar um sorvete com voce
o mundo com o seu tempo inverso
é tão danado de boom
que reparto cães e ecos sustenidos

um sangue enlatado me faz bem
como água que tépida me cospe
tantas árvores onde passo meus restos
eu mesmo já subia escadas perdidas
um pouco do muro onde se desce de uma vez

voar não mais do que voar entre espinhos
malbaratado ruído de uma máscara tétrica
no morro lá em cima o ar e seus cometas se bastam
e eu velo como um cego a haste do seu olhar
assim tú és, tudo tão mundo e mudo

colo por entre os pés escorpiões mórbidos
um pouco da pele que guardas por baixo do sono
sou porco um curral de inúmeras preces
vasto vaso que de partículas içei
zumbi que atravessou avenidas e se foi.

Cgurgel

quinta-feira, 7 de agosto de 2008




A CONTRACULTURA NA AMÉRICA DO SOL:
O Underground Brasileiro na perspectiva de Luiz Carlos Maciel
por Patrícia Marcondes de Barros

Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação no Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de “guru da contracultura brasileira”.

Incursões de Luiz Carlos Maciel
na imprensa alternativa

Pasquim, coluna Underground (1969-1971)

Luiz Carlos Maciel foi convidado pelo jornalista Tarso de Castro a participar do semanário O Pasquim e lançava em 1969, a coluna Underground.

O Pasquim foi fundado por Sérgio Cabral, Jaguar e Tarso de Castro, no Rio de Janeiro, seis meses após o governo militar decretar o Ato Institucional n.º 5, acabando, assim, com a chamada liberdade de imprensa. Seu primeiro número chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969. Era primeiramente considerado um jornal de bairro, no caso, de Ipanema, denominado por muitos como um “jornal de costumes” que conseguiu em poucas semanas emplacar 200 mil exemplares e alcançar rapidamente leitores de vários pontos do país com sua linha editorial irônica.

Os artigos eram variados, assim como a abordagem de cada membro da “patota”. A linhagem ideológica eclética do grupo acabava por definir uma identidade para o jornal.

Segundo Henfil, O Pasquim funcionava como uma espécie de time de onze garrinchas que tinham uma linha política mais ou menos comum, embora um jogue mais recuado, outro avance bem mais, outro só lance. O ponto chave desse jogo é o humor e nisso as individualidades acabavam por se compatibilizar.

O Pasquim inovou o jornalismo brasileiro, se impondo não apenas através do humor, mas também da criatividade e da quebra de formalidades, tendo como alvos a ditadura, a classe média moralista, a grande imprensa e todos os coniventes de plantão.

Maciel, na primeira fase do Pasquim, com a coluna Underground (que podemos datar até sua prisão em 1970), tinha uma curiosidade pela contracultura movida por propósitos meramente jornalísticos. Depois da sua prisão, em 1971, resolveu se aprofundar nas idéias contraculturais, assumindo-se como um hippie. Morou em comunidades, na praia e, por fim, na roça (quando percebera finalmente que era um homem alternativo, porém urbano).

O termo contracultura era sentido no Brasil como algo exótico, uma curiosidade vinda dos Estados Unidos (que induzia a crítica de setores ideológicos da esquerda tradicional, descrentes de sua ideologia revolucionária, considerada subjetiva e individualista).

A parte majoritária do Pasquim compartilhava de uma visão tradicional de esquerda. Para eles, o tema contracultura era associado a um descompromisso, um “desbunde”, advindo do movimento hippie norte-americano (ou seja, uma expressão do imperialismo norte-americano no Brasil).

Com o tempo, a coluna Underground foi perdendo seu espaço dentro do Pasquim, devido ao confronto ideológico que causava, proporcionando uma cisão interna.

A Flor do Mal (1971)

Juntamente com os poetas Tite de Lemos, Torquato Mendonça e Rogério Duarte, Maciel fundou A Flor do Mal (1971), um dos primeiros jornais contraculturais brasileiros.

Para Maciel, A Flor do Mal representava um momento de liberdade extrema, justamente num momento que a supressão da mesma era intensa. O jornal era escrito à mão, numa busca de espontaneísmo total, de eliminação de filtros mecânicos, ideológicos, o que deu ao jornal um perceptível traço de surrealismo.

A capa do primeiro número de A Flor do Mal continha um texto de Baudelaire sobre a imprensa e a foto de uma menina negra sorrindo, despida do peito para cima, representando a pureza espiritual a que ansiavam. Esta iniciativa durou apenas cinco números, contudo, sua tiragem era de 40 mil exemplares, dos quais vendia-se metade. As características inerentes aos jornais alternativos da época eram, geralmente, a falta de dinheiro, o público restrito e a efêmera existência. A Flor do Mal, apesar do curto período de circulação, obteve grandes considerações no meio underground brasileiro.

Seu conteúdo contemplava poesias em versos, poemas em prosa e alguns textos considerados por muitos como absurdos. Poetas da geração mimeógrafo publicaram seus primeiros poemas nesse jornal. De acordo com Maciel, “na Flor podia-se fazer o que desse na veneta”.

Rolling Stone (1972)

No final do ano de 1971, Maciel foi procurado pelo inglês Mick Killingbeck, que veio ao Brasil para trabalhar como físico nuclear, mas que cultivava intimamente um amor pelo rock’n’roll. Conseguiu assim, os direitos da revista Rolling Stone ,grande sucesso nos Estados Unidos, para editá-la no Brasil. Maciel foi então solicitado pelo seu interesse na Contracultura e passou a editar a revista no Brasil.

O número zero saiu em 1972, contendo uma longa matéria escrita por Maciel sobre a vinda do grupo de rock Santana ao Brasil, uma crítica de Mick ao show FA-TAL de Gal Costa, uma saudação à volta de Caetano ao Rio de Janeiro através de uma poesia de Maciel, e entrevistas com o próprio Caetano e Jorge Mautner.

A partir dessa entrevista, Maciel estreitou sua amizade com Mautner, considerado pelo mesmo como “veterano do desbunde”, pois vinha da fase da beat generation dos anos 50 e foi, talvez, o primeiro beatnick brasileiro com a obra Deus da Chuva e da Morte (1958).

A experiência com a revista, contudo, foi breve, acabando por questões financeiras. Logo Maciel se reúne com Jorge Mautner na tentativa de fazer uma nova revista underground no Brasil. Surge, então, o projeto da revista KAOS, em 1974.

KAOS (1971)

Nos anos 50, Mautner tinha lançado o movimento do KAOS com “K”, que consistia na subversão e na contestação dos valores vigentes – não apenas políticos, econômicos e sociais, mas principalmente morais, psicológicos e existenciais. É com esse intuito que a revista surge em idéia, contando também com a participação de Caetano Veloso.

Fizeram um release da idéia em forma de gravação, comentando, através de um “bate-papo” informal, as principais propostas e mandaram para jornais e revistas. A idéia não só foi negada por todas estas instâncias, como também, estereotipada como uma iniciativa hippie, contracultural, associada a uma “maluquice sem propósitos sérios”.

Para Maciel, o intuito central da imprensa alternativa comum a todas as iniciativas era o de combater o poder absoluto da mídia, que se quer imparcial de uma realidade objetiva, mas que atende inescrupulosamente a interesses determinados.

O pensamento de Luiz Carlos Maciel deixa a lição de que não podemos creditar à ação política e a qualquer outro processo de natureza coletiva a função de construir um mundo e uma vida com condições materiais e espirituais mais elevadas, só restando o caminho da experiência pessoal, o de cada um inventar sua própria vida através de uma sanidade física e mental, para a formação de uma nova consciência, de uma contracultura que nos tire da apatia do mundo virtual da realidade.

Lembrar a contracultura dos anos 60, segundo Maciel, pode ser mais do que mero saudosismo: pode nos ajudar a tomada de consciência de uma decadência que parece inevitável, mas que não é historicamente necessária. É sempre possível retomar os caminhos da liberdade. Não se trata de repetir a aventura de então, pois cada momento é único. Trata-se de, finalmente tomar conhecimento de suas lições e reinventar novas formas de existência.

Luiz Carlos Maciel - Breve cronologia

Luiz Carlos Ferreira Maciel, nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a 15 de março de 1938. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, onde se tornou Bacharel em Filosofia (1958).

Ainda em Porto Alegre, fez teatro amador em vários grupos, tais como: Teatro Universitário, Clube de Teatro, Teatro de Equipe. Participou como ator de espetáculos com as peças: Nossa Cidade, de Thonrton Wilder, Seis Personagens a Procura de um Autor, de Pirandello, A Margem da Vida, de Tennesse Williams – entre outras.

Dirigiu também as peças Os Cegos, de Michel de Ghelderode, e Esperando Godot, de Samuel Beckett.

Em 1959, ganhou uma bolsa para a Escola de Teatro da Universidade da Bahia, então dirigida por Martim Gonçalves. Em Salvador, conheceu Glauber Rocha, João Ubaldo Ribeiro, Caetano Veloso, e outros grandes artistas da Bahia e do Brasil ainda em sua juventude. Com Glauber, fez seu primeiro papel como ator principal de seu curta-metragem inédito A Cruz na Praça.

Em 1960, ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller para o Carnegie Institute of Technology, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde estudou direção teatral e playwriting durante dezoito meses.

Voltou a Salvador em 1961, como professor da Escola de Teatro. Nesse período, dirigiu as peças: A História do Zoológico e A Morte de Bessie Smith, de Edward Albee, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, Major Bárbara, de Bernard Shaw, e Leonce e Lena, de Georg Buchner.

Publicou, pelo Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, seu primeiro livro, um ensaio sobre Samuel Beckett e a Solidão Humana.

Em 1964, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde deu aulas de teatro no Conservatório Dramático Nacional. Trabalhou como redator nas redações da revista Fatos & Fotos e no Caderno B do Jornal do Brasil.

Em 1966-67, junto com Waldemar Lima, fez o roteiro e a direção do filme de longa-metragem Society em Baby Doll, baseado na peça de Henrique Pongetti, com atores importantes como Nathalia Timberg, Ioná Magalhães, Sergio Britto, Ítalo Rossi e Marieta Severo.

Ainda em 1967, fundou o grupo Teatro de Repertório, com Tite de Lemos e Paulo Afonso Grisolli, e dirigiu a peça O Labirinto, de Arrabal, no Teatro de Arena da Guanabara. Ainda naquele ano, a editora José Álvaro publicou o livro que fez sobre Sartre, intitulado: Sartre, Vida e Obra. Escreveu ainda o roteiro do filme O Homem que comprou o mundo, de Eduardo Coutinho.

Em 1968, dirigiu espetáculos de teatro com as peças Barrela, de Plínio Marcos, e As Relações Naturais, de Qorpo Santo. Em 1969, dirigiu o espetáculo O Jovem Homem Feio, que reunia dois textos - a peça de Edward Albee, A História do Zoológico, traduzida por ele, e o poema de Allen Ginsberg, Uivo. No mesmo ano, passou a ser colunista do segundo caderno do jornal Última Hora - sua coluna chamava-se Vanguarda. No segundo semestre, foi um dos fundadores do semanário O Pasquim, onde editava duas páginas dedicadas ao Underground - atividade que lhe valeu o apelido de “guru da contracultura”.

Em 1970, foi preso juntamente com a maior parte da equipe do Pasquim, pelas autoridades militares da época e passou dois meses na Vila Militar “vendo o sol nascer quadrado”.

Em 1971, editou o semanário contracultural A Flor do Mal, colaborou no Jornal de Amenidades de Tarso de Castro e, finalmente, tornou-se, em 1972, editor da edição brasileira do semanário Rolling Stone.

Em 1973, publicou mais um livro - Nova Consciência -, pela editora Eldorado.

Em 1975, dirigiu um recital de poesia portuguesa com o ator Walmor Chagas - Os Portugueses. É nesse ano, também, que começa a trabalhar na TV Globo, onde ficou cerca de vinte anos. Exerceu as funções de roteirista de documentários (Globo Repórter), redator de programas de variedades (Saudade não tem idade, Bibi 78), roteirista de programas musicais (Grandes Nomes, Chico e Caetano), roteirista de teledramaturgia (O Copo de Cristal, Futura Madrasta), membro de grupos de criação de programas (Ciranda, Cirandinha), e analista e orientador de roteiros (Casa de Criação, Teletema, CGP) entre outras funções.

Em 1979, colaborou no semanário Enfim; em 1980, na revista Careta e, finalmente, em 1985, no jornal O Nacional - todos editados por Tarso de Castro.

Em 1981, lançou seu novo livro Negócio Seguinte: (coletânea de artigos escritos para o Pasquim e para outros jornais e revistas alternativas) e, em 1982, adaptou Requiem Para uma Negra (Requiem for a nun), de William Faulkner, para o teatro e dirigiu o espetáculo.

Em 1984, dirigiu o show musical Baby Gal, com a cantora Gal Costa, no Canecão (Rio de Janeiro) e no Palace (São Paulo). No ano seguinte dirigiu o show Buraco Negro, de Erasmo Carlos, nas mesmas salas de espetáculos. E também, a peça de Millôr Fernandes, Flávia, Cabeça Tronco e Membros, no Teatro Ginástico.

Em 1987, publicou mais um livro, Anos 60, editora L&PM, e se tornou professor, principalmente de cursos de roteiro que começou a dar em muitos lugares: Centro Cultural Cândido Mendes, Fundição Progresso, Tempo Glauber, Estação das Letras, Centro de Artes de Laranjeiras, etc. Deu ainda cursos rápidos de roteiro nas cidades de Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza.

Em 1991, tornou a trabalhar em teatro, dirigindo a peça de Leilah Assumpção, Boca Molhada de Paixão Calada, apresentada em São Paulo e no Rio de Janeiro. No ano seguinte, dirigiu o espetáculo Brida, uma adaptação teatral do livro de Paulo Coelho, feita por Tiago Santiago, no Teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro.

Em 1994, recolheu, com Angela Chaves, as memórias de Ronaldo Bôscoli no livro Eles e Eu, editado pela Nova Fronteira. Dirigiu um recital de Paulo Autran e Tônia Carrero, Dueto, apresentado no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. E dirigiu também o show Joanna Canta Lupiscínio, que foi apresentado em Porto Alegre e em várias cidades do interior do Rio Grande do Sul.

Em 1995, dirigiu o espetáculo com uma seleção de peças curtas de Érico Veríssimo, Fantoches, apresentado em Porto Alegre e no Teatro de Arena do Rio de Janeiro.

Em 1996, dirigiu a única peça teatral escrita por Glauber Rocha - Jango, uma Tragédya - no Teatro Carlos Gomes, do Rio de Janeiro. E publicou, pela editora Nova Fronteira, no Rio de Janeiro, o livro Geração em Transe, Memórias do Tempo do Tropicalismo.

Em 1997, começou a trabalhar com Lucélia Santos, fazendo o primeiro roteiro de edição e o texto de seus documentários para TV, China hoje - o ponto de mutação, e começando a trabalhar com o roteirista chinês Zhou Zhentien no roteiro de uma mini-série de ficção, O Amor do Outro Lado da Terra, numa co-produção de Lucélia com a TV de Sichuan, da China, um projeto que reúne artistas brasileiros e chineses.

Em 1998, seu roteiro para um filme de longa metragem Dolores, ganhou um prêmio do Ministério da Cultura. Além disso, no mesmo ano, escreveu um livro de memórias de Dorinha Duval, Em Busca da Luz, feito com Maria Luiza Ocampo.

Em 2001, lançou seu livro As Quatro Estações pela Editora Record, onde conta sua trajetória pessoal e intelectual que o levou ao underground.

Em 2003, Maciel lança O poder do clímax pela Editora Record,que aborda desde uma pequena história do pensamento dramatúrgico iniciado por Aristóteles na Grécia Antiga até a análise de teóricos modernos, como Syd Field, Joseph Campbell e Christopher Vogler, não esquecendo o período clássico, quando John Howard Lawson pontificou como intelectual da esquerda americana nos difíceis anos da perseguição macarthista. O livro fornece diretrizes teóricas e práticas para a construção de um roteiro de cinema e televisão a partir de uma idéia simples – a história deve acontecer em função de um ápice dramático, o clímax.

Atualmente, continua escrevendo crônicas, artigos, roteiros para TV e cinema e dirigindo peças teatrais. É também comumente convidado a participar de muitos eventos acadêmicos, devido a sua intensa contribuição para o cenário cultural brasileiro, principalmente, quando o tema em voga é a década de 60 e a contracultura.