segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008




CLAVE DE CLÓVIS
http://www.clavedeclovis.com/

(Trava-Línguas Mental)

Vou contar um segredo pra você. Essa demo chegou pra mim há alguns meses, e desde então eu sou fã dessa banda. Eles têm uma liberdade criativa que dá inveja, o que dá uma satisfação enorme, pois só Deus sabe o quanto é difícil encontrar 4 integrantes com a mesma sintonia. Ainda mais quando a proposta é uma música pop-caótica, “um trava-línguas mental”, como melhor define o release da banda.

Misturando humor fino, besteirol, non-sense e críticas sociais a Clave de Clóvis consegue construir uma verdadeira peça teatral sonora completamente caleidoscópica em cada uma das 7 canções da demo. E pra entender a quantidade de informações de cada canção é preciso algo que falta aos nossos ouvidos condicionados: bom humor. Porque a eficiência da banda depende principalmente de nossa receptividade lúdica. Ouvir o trabalho dos caras é uma grande brincadeira, principalmente porque você nunca sabe o que vai acontecer nos próximos segundos.

A primeira da demo é Brinco Lelo, uma sopa de letrinhas surreal que começa com violão e que em pouco tempo se transforma num rife vigoroso. Já viu um monte de músicas assim? Pois é... você pensa que sim, mas o desafio mais divertido é tentar adivinhar que rumo a canção vai tomar nos próximos 15 segundos. O discurso musical é muito bom, e mesmo que a letra absurda te irrite, é impossível não admirar o trabalho instrumental da banda.

A segunda é Célebro (nada), e as boas letras começam a se revelar. Pena que a gravação nos impede de entender perfeitamente o que os dois vocalistas dizem. Dito isso, é essencial acompanhar as letras no site da banda. Com seu ritmo truncado e seu refrão colante, o compositor Rafael Siqueira comete pérolas como: “É moda ser divino”, ou “Eu não quero me transformar num estacionamento”, além de comparar o “Célebro” a um apêndice!!

“Sou um Sapo” é um baião à la Raul Seixas, com uma letra muito romântica, mas só na cabeça da banda: “Sou eu que te ama tu / Mas você não me ama a mim”. E ainda: “Beija a mim que eu sou sim sente sempre”.

Se a anterior pôde ser definida como um baião, não é o que acontece com “Zóio Del”. A canção é outra que merece destaque pelas “duzentas” partes diferentes e conta com uma letra impagável, principalmente com a falsa síndrome de perseguição que nos aborda ao ouvir “Os olhos dele ‘tão em todo lugar”...

E aí, que você já se encantou com a proposta da banda, começa a melhor parte do disco. “João Expedito Blues” é outro caos sonoro – que, aliás, de blues não tem nada - , contando a história absurda entre João Expedito e “Marlene Jardim Apurá”, com partes hilárias em inglês embromation e até em italiano. Não tem como não rir com a interpretação vocal de cada uma das intervenções na história, sem contar com mais frases hilárias, como: “Vão planejar seu salário / E vão decidir de quanto será sua fome”.
A próxima é um clássico instantâneo. “Zé Gerardo” é uma daquelas marchinhas de louvação a reis e rainhas de filme picareta. O excelente refrão “Gerardo é nosso rei” é pra ser cantado fervorosamente em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. Conta a história de um sujeito tão perfeito, que faz com que os maledicentes acusem: “Se você não tem defeitos, então não é humano”. O que causa uma crise de personalidade em nosso herói. Hahahahahaha... Cara, se te sobra um pouco de humor nessa sua cara de ranziza, não deixe de conhecer essa música!!

Depois do jogo ganho de goleada, a hora é de “Homem Urso”, a comemoração do título. É a mais agitada do disco, e conta uma misteriosa lenda da cidade litorânea de Ubatuba - SP. Essa sim tem no meio um blues autêntico, com direito a gritos de platéia e barulho de copos de uísque. A vinheta final é ainda mais engraçada e termina a demo no ápice, dando um resumo do trabalho. Uma voz séria proferindo versos revoltados com a interferência de coros e frases como “Sou todo ouvidos que não escuto nada”.

A Clave de Clóvis explora a criatividade até o limite (se é que existe limite para a criatividade), e o mais legal disso é que a banda prova que é possível criar refrões cantáveis em meio a um furacão de idéias mais do que bem exploradas. É, sem dúvida, uma das melhores bandas que mandaram demo pro Roquenrou.

Flávio Caldas – Bateria
Fabio Silas – Baixo
Caio Rothje – Violão / Voz & Teclados
Rafael Siqueira – Guitarra / Voz & Teclados

7*1*2005

Rodrigo EBA!

Um comentário:

Flávio disse...

Oba, que bom encontrar por aki essa resenha, ninguém conseguiu analisar com tanta riqueza o que produzimos, só vc foi capaz Eba, Abraços.

Flávio.