terça-feira, 29 de julho de 2008


MÚSICA, ARTE E PSICODELISMO NA AREIA
( NATAL, ANOS 70 )

Mais cedo ou mais tarde as mudanças chegariam. Nos anos sessenta a concentração de banhistas se deslocaria de Areia Preta até a Praia do Forte, com suas piscininhas naturais e a imponência do Forte dos Reis Magos guardando o lugar. Para lá se dirigiam as famílias, crianças com pás e brinquedos de areia, casais de namorados que caminhavam de mãos dadas sob o olhar de todos.
A Praia do Meio, na sua condição de ser do meio, deixava que viessem a ela as classes mais baixas: quem descia das Rocas ou tomava o ônibus no Alecrim ou Cidade da Esperança. O pessoal de uma praia não invadia as areias da outra, cada um consciente de seu espaço.
Com os anos setenta, novos ventos sopraram naquele pedaço de praia. A revolução mundial dos costumes refletia por aqui. Contracultura, movimento hippie, baseados, tudo isso vinha aportar também em nossas praias. Filmes como Easy Rider e Woodstock eram exibidos na Sessão de Arte do cinema Rio Grande, discos dos Beatles e dos Rolling Stones evaporavam das prateleiras. O comportamento jovem passava a ter outro relevo. Tudo era determinante, as roupas que se usava, aquilo que se comia e, claro, a praia a qual se frequentava. Segundo o músico Luiz Lima, que viveu ativamente essa época, " no início da década de setenta, começou a acontecer uma transformação nos ares e nos lugares da cidade, em toda parte a moçada começava a se dividir. De um lado ficavam os ‘caretas’, de outro, nós, os ‘malucos’ ".
Para os caretas, tudo continuaria igual, já os outros precisariam de mais espaço para estravazar sua arte e inconformismo, distante da área militar e família da Praia do Forte. Foi aí que se descobriu a Praia dos Artistas.
A praia deixava de ser um lugar destinado apenas a caminhadas ou banhos de sol e mar, tornando-se porto para o deleite do corpo e da mente, aproveitado ao longo de todo o dia e também durante a noite. Logo começaram a surgir bares, barracas, quiosques, boates, espaços culturais, que se estendiam da Praia dos Artistas até a Praia do Meio, que se tornaram cartão de visita de Natal e grande opção de quem quisesse conhecer a noite da cidade.
As areias ganhavam o colorido das batas indianas, camisetas explodindo em motivos psicodélicos, e o brilho dos corpos ao sol rivalizava com o brilho das lantejoulas ao luar. Arte e cor eram trazidas por uma grande leva de estudantes universitários, pretensos artistas locais, que tinham na Praia dos Artistas seu ancoradouro. O país atravessava uma fase de ditadura e opressão, talvez por isso, o ato de criar se fizesse tão necessário.
Bares como o Tirraguso, o Artmanhas, a Casa Velha se enchiam de rostos jovens. Eram atores, dançarinos, artistas plásticos, poetas ensaiando o que ia ser a época de ouro da cultura da cidade. Todos fazendo uso daquele espaço para mostrar o que sabiam. E não parava por aí...o tinham as barracas toscas da Praia do Meio, ainda na areia, como a famosa "Barraca da Marlene" para quem queria sentir o mar perto. "Era nas barracas que nos reuníamos para compor as melodias da banda Gato Lúdico, eu, Jaime Figueiredo, Carlos Lima e Claudio Damasceno. Lá vivíamos noitadas acompanhados do violão, dos mixes de cachaça com cerveja e tiragosto", lembra o arquiteto e artista plástico Vicente Vitoriano.
Na época, a praia possuia dois espaços culturais: a Galeria do Povo e o Artelier. Também abrigando o primeiro restaurante macrobiótico de Natal, onde o pessoal ia se liberar das toxinas consequentes dos excessos noturnos com os pratos do proprietário Véscio Lisboa. Na segunda metade dos anos setenta, surgiu o Festival do Forte, idealizado pelo músico Luiz Lima, o artista plástico Sandoval Fagundes e o escritor Carlos Gurgel.
"O festival acontecia na terceira lua de cada mês e era um momento de muita música, muita poesia e muita loucura, depois disso, nunca houve nada em Natal tão contundente para nossa cultura como o Festival do Forte", recorda hoje Gurgel, com os olhos cheios de nostalgia. Yuno Silva, estudante de Comunicação, era criança nesse período, mas lembra de quando era levado pelos pais junto com o irmão para curtir o festival, "Os moleques ficavam pulando naquela casa de armar no meio do Forte. Era incrível, sendo criança, ver de perto artistas como Chico César, Aguillar, Chacal, Jards Macalé...são tempos que não voltam mais.
Durante os anos setenta e oitenta, a praia dos artistas era um lugar concorrido durante toda semana. A jornalista Cione Cruz diz que " a partir das quintas feiras, íamos à praia de dia para tomar sol e à noite exibíamos nosso bronzeado nos bares e boates de lá". Havia ainda uma turma que fazia da praia dos artistas a sua casa, gente que chegava de manhã, depois da aula, de mochila nas costas, trocava o calção de banho e ia jogar frescobol nas areias ou surfar naquelas ondas. Um bom exemplo desse tipo de frequentador era o jornalista Flávio Rezende, assíduo jogador de frescobol, "chegava por volta da 11, 12 horas, depois das aulas do curso de Comunicação da UFRN e ficava até às 18 horas". Nos anos oitenta se intensificou também a prática do surf, daí vieram o campeonatos ao bar caravela, transmitidos nos alto falantes. "Sinto saudade do rock muito alto que tocava durante os torneios, dos amigos sem hora pra ir embora, as paqueras na beira da praia e os beijos na boca apaixonadíssimos, que até deixava a gente meio fraco..."
Com a ida dessas décadas, foram-se também a grande maioria dos frequentadores do lugar. A maturidade e as ocupações iam distanciando pouco a pouco os antigos. E a falta de segurança inibia a formação de uma nova geração de praieiros. A reurbanização e construção dos quiosques de cimento, ao invés das barracas, não foram suficiente para assegurar a reestruturação da área.
Natal acontecia agora bem longe dali. As diversões eram outras, as praias também. A burguesia ia de carro até os distantes litorais norte e sul, procurando aquilo que já não se via mais no urbano: segurança, tranquilidade. O desfile de beleza nas praias urbanas, as paqueras no calçadão, davam lugar a um outro tipo de oferta. O "quem me quer" adquiria outra feição com a explosão do turismo e a procura dos estrangeiros pelas mulheres locais.

5 comentários:

Carlos disse...

Belo e importante texto. Para a memória/história da cidade. E particularmente para mim. Foi aí, nessa época, onde eu "cheguei"... do meu mundo da minha casa, da minha rua, para esse mundo todo aí... de referência fundamental para o que eu ia querer fazer, fazer ser, ser artista e tal... Chgeuei um pouco no final disso tudo aí, mas para mim um grande começo... Final dos anos 70 e início dos 80... Eu adolescente chegando no pedaço, mais observando, cevando, as idéias e pensamentos que "os caras mais velhos" e artistas (hoje praticamente da minha mesma idade, pois o tempo aproxima outros tempos) mandavam ver. Mandaram ver e eu obedeci a lição de liberdade: vi, e em muitos momentos participei - do Tirraguso, da Casa Velha (do meu vizinho Luís Emílio)e Artmanhas, entrando meio de penetra (eu era tipo aquele mais novo café com leite querendo adentrar outros ócio-anos) em reuniões observando da janela da casa dos irmãos Lóla-Fon-Eustáquio, também espiando jam-sessions do Gato Lúdico... a Galeria do Povo... Milton Nascimento na Barraca da Marlene... e até cantei no Festival do Forte com o Fluidos em 1984... Época das gargalhadas perfórmáticas de Gurgel se espraiano na noite dos artistas... Gurgel que me apresentou tanta coisa muitas vezes sem saber que estava fazendo isso... Quando conheci Marcos Bulhões e a Esquina Colorida, aulas de Atenilde na Escola de Música em contraste somatório com o AMAI e vice-Véscio... Lisboa era aqui e muito mar para ser navegado em própria terra mais do que do sol... Na noite onde conheci Augusto Lula, me reencontrei com o amigo do Salesiano Plínio Sanderson, noite de Raul e Alcatéia Maldita, Maurício Queiroz, Lucinha Moreno, Blackout... Quando conheci a galera do QG lá no centro - Juan de La Calle, J Medeiros, Aloísio Matias, Abimael, Carlos Astral... e muita gente massa através de Afonso Martins que fazia arquitetura comigo.... Curso de Multimeios com Paulo Bruscky lá no NAC... o Boca Bar, a Aratarda mas não falha... a amizade com Flávio Freitas e Marcellus Bob que moravam em Mãe Luiza... e toda essa galera e essa Natal que foi importante para que eu pudesse descobrir a evolução da transgressão... Esse texto me emocionou, pois essa época foi meu trampolim da vitória, da vitória do meu coração! Obrigado e um grande abraço! Carito

Carlos disse...

Ah! E vale registrar que era o máximo (em todos os sentidos, inclusive de volume) escutar o Led nos alto-falantes dos campeonatos de surf ... De dia havia algo muito forte no ar, de noite havia algo muito forte noir... E dentro de um pensamento praiano-urbano-festival-coisaetal, pode-se dizer que A PRAIA DOS ARTISTAS ERA MUITO FORTE!!!

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

Carito,
esse texto não é de minha autoria. (apesar de ser tão), pela translúcida efervescência dos anos 70, e porque ele descerra com tanta cumplicidade, tantos e inúmeros tontos episódios devastadoramente psicodélicos por onde essa jovem londrina cidade tão babelicamente se encruzilhou. eu peguei ele de uma dessas garimpagens que dioturnamente faço, como querendo radiografar o que imagino possa me interessar, e; principalmente aos poucos que por aqui passam, e de tão inequívoco calibre. (voce é um desses que estão sempre por esse meu blogspot). então foi assim, poeta, que postei esse texto. com forma e conteúdo tão nostalgicamente contemporâneos. oxalá outros que o lerem, se emocionem. voce sabe que nem o autor desse referido texto, eu sei quem é?
abração,
eletricamente poeta!

Cgurgel

Caio disse...

o texto é massa,pra usar a expressão dos locais,mas,o nobre cgurgel se não é o autor deveria citar a fonte,se não me engano,coroação da dignidade para uns,manifesto do direito para outros,enfim : se o cabôco é recorrente no êrro,pelo que parece,ficamos a duvidar de sua ufanada maestria e a repensar a colagem presente em seus tantos textos (antropofágicos?)...

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

rapaz, é foda mesmo. eu aqui no meu cantinho e vem um fela da puta, que nem se identifica, para dizer que eu sou ladrão dos textos dos outros. home, vai pegar bronze na esquina da januário cicco com o raio que o parta!!