sábado, 10 de maio de 2008



Reproduzo aqui, texto meu publicado na coluna do poetamigo Mário Ivo, e que ele, com todo o seu elenco de elogios, me levanta a crina da sina verbolingual

CULTURA 100508 sábado

ADIVINHE QUEM VEM PARA O CAFÉ-DA-MANHÃ: CARLOS GURGEL

Gurgel dispensa apresentações. Qualquer tentativa de resumi-lo é inválida. Qualquer resumo, tosco. Qualquer arranjo, fugidio. Percorre as margens do Ryo Grande há tantos sóis quanto de luas são tecidos os encantos e desencantos desta província. Carlos Gurgel nasceu pra brilhar – este poderia ser seu slogan, como o do sol maiakovskiano – e se reinventa a cada dia.


FORTUITA PRESSA
final dos anos 60. rua ezequias pegado no tirol. papai e mamãe organizam festa de fim de ano. os poetas da cidade comparecem. lá estão: newton, berilo, dorian, paulo de tarso, sanderson, zila mamede, luís carlos & lêda, celso & myriam, nei, e tantos, tantos outros. eu, 12 anos. primeira poesia: “o mundo é uma casa ambulante/ cheio de precipícios/ de geração à geração/ com obstáculos difíceis”.
ficava tamborilando na mesa da sala, refazendo “trio los panchos” e glen miller.
papai me chama e pede uns poeminhas meus. e eu, de uma indisfarçável timidez, aos poucos me vi pronunciando rascunhos e dialogando com todas aquelas pessoas escolhidas, ímpares, integrantes de uma alma preciosa.
tinha uma ala mais medonha que lá também ia: walter von berbe (o george “hare krishna” harrison natalense), dailor varella com seus calipsos tropicalistas, e miguel cirillo, afiando seus uivos vivos.
assim me fiz ver. nesses encontros da proximidade com letras, poemas. e com figuras extremamente humanas demais. medonhamente interessado no que elas falavam e escreviam.
e, do universo cascudiano, resguardo um estoque inesgotável de síncopes e alumbramentos, fruto da insistente e incorrigível simpatia que meu pai revelava ao me levar por inúmeros anos ao casarão onde diuturnamente a alma do povo ressuscitava e sorria.
e tinha também, a galeria “vila flor”, de augusto severo e lúcia, no bequinho, no centro da cidade. onde aconteciam vinhos, violões, banquinhos e versos. espaço aberto como declaração de festivas linhas e sombras.
e o “cine clube tirol”, de moacy cirne, anchieta, palocha, e tantos, tantos outros.
como também as domingueiras no “rex”, focos de trocas de gibis e filmes. no convite de luís carlos guimarães, que passava lá por casa e íamos assistir épicas e tétricas películas.
assim, no “marista”, a formação do “the functus”, e a musicalidade que germinava ensaios e festivais. o grupo, ivanildo, napoleão, glaucus, adroaldo, luis neto, joão batista, pirú, tão irmão e criativo, ganhava público e prêmios.
minhas letras musicadas por eles: “o abalroamento da vagonete contra uma senhora moça”, “black-out”, “missa biológica/transe comunhão/sacrossanto”. e outras.
na “explosesc”, therezinha de jesus e amaro lima já se contorciam com a “era de aquarius”, e desbundavam por entre uma platéia céptica e entranhadamente saudosista.
foi em um desses festivais, que cansado de ficar na platéia, decidi que no palco estaria. o grupo se classificara com a peça “missa biológica”. na véspera, tive a idéia de me confessar ao padre, e fui lá na igrejinha de petrópolis. quando ao término da confissão, no descuido do sacerdote, afanei turíbulo e paramentos e pernas para que te quero.
à noite, no camarim, sem que ninguém soubesse, me paramentei e no lugar do incenso, pus maconha. lembro que na comissão julgadora, em frente ao palco, lá estavam anchieta fernandes e tantos outros. e aí adentramos ao palco, cada um, tal qual figura do jeito que quisesse.
o estopim da música com a letra, a expressividade de todos, a platéia animada. foi quando acendi a dita cuja e me dirigi aos componentes da comissão. passava para eles a sensação de um olor nunca antes consagrado.
ao final da apresentação, como celebrando tamanha sandice, todos os integrantes da comissão empunhavam a tabuleta que personificava o número dez.
depois aconteceu o “festival do forte”, “galeria do povo”, a minha dependência toxicômona, desbunde dos anos 70, muito rock, sons lisérgicos. amigo de gualberto, miguel, fon. próximo de walflan, siqueira, bosco “tripa”, “black-out”.
isso tudo são amálgamas. frontispícios. uma leva de estrelas e brilhos incandescentes. como uma chuva do bizarro onde habita o “spleen”.
como o “grito primal” do janov, e do lennon, em “mother”. uma boléia onde raspo e cabe, o ladrilhar de tontas coisas.
nesse jardim onde adubo e me tacho, floresce como uma tétrica viagem, o sentimento do ensejo vasto. do zen, yoga, integral food.
como elixir do rock doido e estrebuchado. como um interstício de mim e do que não gosto. como flagelos, flocos, fotos tão recentes e tão passadas. um dilúvio que me faz ler tão madrugadoramente. tão beatnik poema. tão desmesuradamente órfão de meticulosidades vazias e fósseis.
hoje, tenho próximo, como parceiros sonoros, a estampa de valéria, a instingante pessoa que é simona, a fortuna da criatividade do luis, a tonitroante beleza sonora de krysthal.
sim, música e poesia são indissoluvelmente parceiras.
como uma trupe que acelera e desfaz ritos e pit-stop. hoje, talvez, mais do que ontem, celebro o sol e o céu tal qual arte.
filho de um desastre de vozes, como espelho e espanto. cantochão no palco onde fervilho o brilho de uma trilha. onde o meu poema esquarteja no coração da noite que me guia, os segredos dos dias, como o tear de um rascunho de rotas.
letras, parágrafos, passárgadas. discípulos de uma sinecura de asas, que me lembra uma cidade adormecida pelas suas órbitas, esquinas.
eu vou, parceiro do que o meu silêncio rumina.

PROSA
“Que existam magias negras, trevas e ocultismos para que sejam ainda mais nítidas as vitórias da claridade.”
Almada Negreiros
Obras completas

VERSO
“eu, de repente,
inflamo a minha flama”
Maiakóvski
“A extraordinária aventura...”

4 comentários:

lòla disse...

boa retrospectiva, velho gurja, da qual tenho muitas lembranças. pra restar no clima: yes, but i was so much older then, i'm younger than that now. abraçao

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

obrigado irmão. a estrada leva nós. como forno & lenha de uma aquarela aquariana. somos o que o vento nos legou. e para quem sempre fez parte do trem, sonhou.
abração Lola
do irmão
Cgurgel

Gustavo Santiago disse...

você é um memoralista meu velho!

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

obrigado mais uma vez Gustavo. o que tento é só limar os córregos de um tempo lastro.
abs
Cgurgel